quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A uma passante (no facelessbook)





Não há crítica que convença
o cinema da minha cegueira
quando o teu corpo todo é usado
a favor de uma estátua com cílios.

Todas as imagens são filhas
da filtragem da luz do sol
e da minha introversão,
que entretanto
se encontrou finalmente
perdida.

Porque na realidade nunca te despes.
E nas tuas fotos do Facelessbook
estás demasiado convencida
que a noite não te trará nem mais um chapéu
proibido onde possas pousar a cabeça
e a fotogenia.

Ocultas o rosto na convexidade da técnica
e durante o teu sono injusto
o teu cabelo sangra copiosamente
entre o pus e o design
da dor e do atrevimento
de estares tão longe de mim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Epitáfio




Por vezes fazes anos
que morreste,
e o aniversário da tua morte
é a motorizada que não deixa
de passar por mim, todos os dias,
coberta de esperma de foguete
cinzas e desperdícios,
e que vai, permanentemente em festa
ao lado do meu veículo, a arder
na direcção inconclusa do tempo,
contra a vez de um espelho
aprioristicamente partido,

sempre

no sentido de chegar ao inferno
ao mesmo tempo que eu.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Derrames oculares



1. O amor tem mil olhos e mil derrames oculares. Abrem-se e fecham-se portas, pálpebras, portas, a uma velocidade que a vertigem não pode imitar. É antes um permanente alerta mascarado com a espessura trágica de um quotidiano de estúdio, estupidificante, o amor quando sobe ao olhar proibido de olhar. Uma fonte de preocupações impudicas, um jacto de luz inconclusa, como um lago míope no meio da oportunidade obliterada da paixão. Uma comédia de lágrimas e algoritmos entrecortados por finas camadas de mal-estar geral,
cefaleias e vassalagem.

2. Podias ter vindo comigo, quando te chamei, para debaixo de todas as possibilidades. E esta afirmação repete-se continuamente, enquanto o amor for imperfeito e pertinaz, na cabeça daquele a quem ocorrem todos os pontos de vista e, consequentemente, todos os derrames oculares. Na cabeça daquele que hesitou e não pôde comparecer debaixo de todas as possibilidades. Na cabeça daquele a quem foram dados mil olhos e – tal como Quixote – uma conjuntivite lendária e galopante, para tornar a coisa mais verosimilmente irreal.

3. E é na imprudência fétida desta festa primária, neste velório do acaso ao acaso abandonado por caprichos e preceitos culturais, que eu rendo os meus mil olhos injectados à tua total desaparição.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A angústia da Influência




Há já tantas pessoas desaparecidas em Pessoa,
que já não surpreende que os melhores mortos
sejam aqueles que, em vida,
trabalharam arduamente
para que todos desaparecêssemos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Despir outra pele




O meu casaco de imposições biológicas está gasto
nos sítios onde o corpo oferece resistência ao tempo
e há um maior número de glândulas sudoríferas.
Chego a casa, dispo o casaco, e permaneço
com o casaco vestido.

A noite é uma ponte em ruínas.
A lua, um holofote de ideias fixas.
Ao longe vêem-se os cabos de sustentação
da inércia.
É inútil eleger alguma hora melhor
que nos proteja.
A minha vida é permanecer
auscultado por essa fantasmagoria.
Com ou sem casaco,
especializei-me em permanecer.

Permanecer com as metástases do meu casaco,
como as metástases do meu casaco
permanecem em mim, mesmo quando o dispo,
contemplando uma ponte em ruínas
e exercendo aí a minha permanência
o melhor que posso e sei,
24 horas por dia.

Há sempre um casaco a cobrir as costas
demasiadamente expostas da permanência.
Pêlos, ainda que pálidos e breves,
na pele postergada dos mamíferos.
E o invisível gesto de alguém que se apressa
lentamente a aconchegar-te ao primitivo,
com as mãos sujas de desdém
e a tecnologia do contacto indestrutível.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O Nosferatu do método



Tenho o pressentimento inacabado e esbaforido
da tecla tocada até ao fim.
É o som que arromba o trabalho da tecla,
a música que destrói a sua carpintaria
extremamente permissiva,
o grito que escurece as pancadas do sexo
e dissolve a cena violenta num sono vigiado
e privilegiado por lâmpadas e labirintos
incumpridos.

O alarme é um animal de hábitos negros:
soa apenas quando a cópula termina.
Nenhuma parte de mim precisa de mim.
Nenhum prazo, ou arranjo,
ou necessidade centrípeta
sente a falta radical da minha alegria
para que possa existir.
Aqui, a luz perde a utilidade também.

É como que se de repente tudo estivesse
estranhamente pousado
num acidente certíssimo
e à oportunidade fosse acrescido
o Nosferatu do método.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Expiação




dói-me o teu aparelho longínquo,
dói-me o irresistível artesanato
da distância,
dói-me o irrespirável teatro
ortopédico da salvação,
dói-me o choque frontal do amor
com a sua tremenda falta de humildade,
dói-me a anestesia do teu lugar vago,
dói-me a dança esquelética da minha dissimulação,
dói-me a propaganda póstuma das tuas mãos,

quando aplaudem a castração do herói em palco,
quando atrasam a pesquisa para a cura da neoplasia
da eternidade,
quando investem todas as suas economias e auroras
numa dimensão mais intolerante,
quando massajam a minha culpa ciclópica
e maltratam o meu endereço final.

dói-me, sobretudo, a grande subjectividade da dor,
a arquitectura desmaiada da esperança,
a longa travessia do rio líquor a nado,
a falsa assinatura dos seus contratos nervosos
com o imperdoável,
e o preço que eu pago
pela minha dor elegante
nas lojas mais prestigiadas da cidade
arrasada do amor.