sábado, 30 de outubro de 2010

Máquinas malogradíssimas



Uma máquina de fazer sumo da Terra e não haver sumo na Terra, senão suor proveniente da máquina e do seu esforço incómodo, humilhante e repetido para o conseguir.
Uma máquina de barbear mentiras, mas sem lâminas capazes de cortar rente os pêlos encravados das mentiras. A face mentirosa cheia de pistas de sangue e pequenas insurreições, mas a barba intacta, como se as mentiras fossem parasitas de ferro e amassem os pêlos em toda a sua extensão e península.
Uma máquina de costurar segredos. Segredos desfeitos. Impossíveis de coser. Nem com a linha mais inventiva. A paciência mais pálida e solene. A precisão de deus quando opera a sua autonomia relativa. E os segredos degradados, como doentes parkinsónicos, perdidos de riso, fazendo tremer o repouso onde a inutilidade de tudo exerce a sua vocação vazia.
Uma máquina de fazer máquinas de fazer cócegas a tudo isto.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estudo para um retrato da electrocussão





Liga-se o tempo à tomada
e logo se projecta luz
sobre todos os acontecimentos.

Ninguém quer reprovar a Cronometria
Descritiva, fazer exame a Eternidade II,
ou ir à oral de Ciências da Condição
e ser expulso da única escola de ser
por motivos poucos nítidos,
entre a insurreição, ainda que terna,
e a inconsequência terminal.

Ninguém quer aparecer nos jornais
famoso por ter falecido da forma mais vulgar
de que há memória e registo,
ainda que saiba previamente dos pactos de união
entre a sua morte e a posteridade relativa
da sua morte feita notícia
e seja partidário do sofisticado sistema político
praticado por aqueles para quem a inexistência
passou a ser um modo de vida,
tentando inclusive ascender a lugares de topo
na empresa plena da dissolução.

Ninguém mesmo em vão denuncia
o prejuízo deste corpo profético,
e o seu porte atlético alterado
por gerações e gerações
de telómeros obscuros
e histórias de amor
e deficiências profundas
expostos como estamos às máscaras
de oxigénio
e ao cinema apócrifo
da sedação.

Afinal, é sempre a mesma gota que cai
uma a uma iniludível do céu,
e que cai sobre a tomada do tempo
e que veste de rosas uma electrocussão.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Prece



Imagino o país da página em branco.
E, ao lado, mesmo ao lado,
o país da página preenchida.
No primeiro, a tentação de existir.
No segundo, a existência da tentação
primeira, segundo Santo André, o solícito,
como se a tentação fosse também exprimível
em tentáculos da existência e tentativas de tentativas,
assim a existência fosse uma medusa ao espelho,
com os seus cabelos geologicamente perturbados de signos
suicidas,
mas à qual devêssemos pelo menos um olhar, uma sílaba,
qualquer forma arcaica de insistir
na conveniência de não ter nascido,
como qualquer homem,
que não é de ferro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Em comunhão com ninguém



Um convento fica longe da necessidade do mundo,
mas o amor fica ainda muito para lá do convento.
É como se não houvesse estradas para amar, ou pés
suficientemente descalços sobre as incandescências
da ausência,
e a reclusão no amor fizesse ela própria votos
de pobreza extrema,
escrevesse um diário da ingratidão
com o desmazelo,
e chegasse a uma fórmula de desviver
honestamente em comunhão com ninguém.

domingo, 3 de outubro de 2010

Hipnose para principiantes




Presta bem atenção.
I shall say this only once.
La vida es sueño.
Emma Bovary c’est moi.
Sou eu mesmo que te digo
em sonhos:
I do not love you.
I love youth.
Y tú te comprometes a pagar
la diferencia entre la verdad y la maldad.
Como se houvesse uma casa no tempo
onde ainda fosse possível
pentear o desânimo
dar-lhe um look moderno
oferecer-lhe um país com piscina,
um hiato com vistas para a reconciliação.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Auto-retrato com fantasmas e mamíferos



Eu e tu: o resto são fantasmas. Fábricas de lençóis aflitos. Empresas inadequadas ao mundo visível. A disfunção eréctil da promessa de aparição.
A sociedade aquosa e secreta dos fantasmas. Espécie de produto catabólico do omisso, que é o distintivo do amor e a pistola impalpável do mortal, que por mais amar o próximo se tornou efectivamente longínquo.

A casa deserta, continuamente adiada, sem episódios de maior relevo ou directrizes. Horas mais que malignas escoam do espaço interior a sua manutenção inevitável. A invertebrada mobília da noite. Os moluscos da insónia. A escuridão adesiva. O silêncio adesivo. A música da água morta nas canalizações. Passos imperceptíveis, dados em falso num plano sem gravidade nem resolução.
Tudo parece evitar-se a custos baixíssimos. Um aquário cheio de instantes destruídos, adaptados entretanto com as guelras da memória vã.

Eu e tu, dois mamíferos elegantemente despidos, maravilhados com as suas imperfeições ideais.
A luz da Lua que atravessa o postigo e descola imagens e desloca olhares. Técnicas nulas e mistas para acender a audácia, para ascender à audácia, como se estivéssemos mergulhados na pré-historia do ânimo e do aviso, no futuro trémulo da hesitação.
E no entanto, passeiam-se à nossa volta as formas plenas da desobediência em lingerie, influentes flores do interlúdio, os dejectos delicados da insensatez que já não nos assustam com a sua epilepsia mordaz.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Didáctica da mentira





Levitar é mentir. Tentar escapar às leis de Newton dá prisão perpétua, como a água que nasce, dita caminhos com desdém e lógicas imprevistas e, no fim, suicida-se nas altas temperaturas da parede que a detém para sempre no seu imenso oblívio,
como uma progressão aritmética sem razão, constante ou juízo.

Na próxima encarnação serás rastejante, que é o cúmulo do terrestre, que é para veres porque nunca deverias ter tentado mentir.
E rastejar é a forma mais acabada de prestar vassalagem à terra, com todo o nosso ser, dignidade incluída.
Por isso, a levitação está proibida. É-se obrigado a dizer a verdade sempre. A verdade do nosso peso terrestre ao ouvido das cicatrizes, que também se movem sobre o solo, ainda que sobre um solo fictício, onde a esterilidade fez governo e raízes, o desemprego grassou e o mundo fingiu um passado em comum com o resto do corpo que é ar, água e fogo fundidos.

Por isso, evito levitar em público. Continuo a achar que será
sempre melhor haver mais quem em nós nunca acredite.