terça-feira, 16 de novembro de 2010

Jamais




Jamais, a temível capital da Terra do Nunca, não fica muito longe daqui. Aliás, nos dias sem nuvens é mesmo possível avistar Jamais, a torre mais alta da sua sé catedral, os edifícios engalanados de flautas e asas, pertencentes ao corpo governamental e diplomático do sonho, a antena vibrante das telecomunicações, a ala norte do palácio da imaturidade secular, e mais um ou dois triunfos da sua arquitectura lunática e acidentada, que se erguem contra a negatividade que a etimologia obscena depositou na sua invertebrada constituição.
Embora à primeira vista não pareça, Jamais vem descrito no mapa como a mais emancipada micro-nação de que há memória e registo. Isto porque Jamais está de tal forma encorajado a diluir-se na sua inexactidão, que nenhum mapa aponta as mesmas coordenadas para situar Jamais. Digamos que Jamais – mais do que a temível capital da Terra do Nunca – é um pequeno país incerto e itinerante, sendo este argumento ainda assim incapaz de explicar porque Jamais aparece ao mesmo tempo assinalado por todo o planeta mapeado, como se todo o planeta fosse absoluta e completamente Jamais, como queria Peter Pan.

sábado, 13 de novembro de 2010

Da decepção




Subo até ao observatório da decepção. Lá em cima faz um vento tremendo. É a culpa e os cabelos da culpa a baterem-me no rosto e a deixarem consequências, uma música infértil que se aloja na violência da cena e não me deixa prosseguir com a observação.

Se estivesse à espera de ver florestas a arder, encontraria primeiro na tua pele os patrocínios, perto dos lábios da biblioteca e da história da humidade característica de certos livros, quando são folheados com um dedo, saliva e desdém.

Mas não.
Antes que as florestas ardam, antes que te veja com os olhos mergulhados no éter e na porcelana fina, eu estou atento à decepção e só à decepção.

Passo horas, por isso, entre o charme do alcance das vistas daqui sobre toda a península da distância contrita, com todas as suas montanhas nevadas de sémen seco, com todas as suas areias movediças, mesmo correndo o risco de te perder para sempre

nalguma praia projectada a mil quilómetros deste sítio, nua, completamente nua, apenas coberta de razão
e querosene

búzios, pólvora e pormenores.

sábado, 30 de outubro de 2010

Máquinas malogradíssimas



Uma máquina de fazer sumo da Terra e não haver sumo na Terra, senão suor proveniente da máquina e do seu esforço incómodo, humilhante e repetido para o conseguir.
Uma máquina de barbear mentiras, mas sem lâminas capazes de cortar rente os pêlos encravados das mentiras. A face mentirosa cheia de pistas de sangue e pequenas insurreições, mas a barba intacta, como se as mentiras fossem parasitas de ferro e amassem os pêlos em toda a sua extensão e península.
Uma máquina de costurar segredos. Segredos desfeitos. Impossíveis de coser. Nem com a linha mais inventiva. A paciência mais pálida e solene. A precisão de deus quando opera a sua autonomia relativa. E os segredos degradados, como doentes parkinsónicos, perdidos de riso, fazendo tremer o repouso onde a inutilidade de tudo exerce a sua vocação vazia.
Uma máquina de fazer máquinas de fazer cócegas a tudo isto.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estudo para um retrato da electrocussão





Liga-se o tempo à tomada
e logo se projecta luz
sobre todos os acontecimentos.

Ninguém quer reprovar a Cronometria
Descritiva, fazer exame a Eternidade II,
ou ir à oral de Ciências da Condição
e ser expulso da única escola de ser
por motivos poucos nítidos,
entre a insurreição, ainda que terna,
e a inconsequência terminal.

Ninguém quer aparecer nos jornais
famoso por ter falecido da forma mais vulgar
de que há memória e registo,
ainda que saiba previamente dos pactos de união
entre a sua morte e a posteridade relativa
da sua morte feita notícia
e seja partidário do sofisticado sistema político
praticado por aqueles para quem a inexistência
passou a ser um modo de vida,
tentando inclusive ascender a lugares de topo
na empresa plena da dissolução.

Ninguém mesmo em vão denuncia
o prejuízo deste corpo profético,
e o seu porte atlético alterado
por gerações e gerações
de telómeros obscuros
e histórias de amor
e deficiências profundas
expostos como estamos às máscaras
de oxigénio
e ao cinema apócrifo
da sedação.

Afinal, é sempre a mesma gota que cai
uma a uma iniludível do céu,
e que cai sobre a tomada do tempo
e que veste de rosas uma electrocussão.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Prece



Imagino o país da página em branco.
E, ao lado, mesmo ao lado,
o país da página preenchida.
No primeiro, a tentação de existir.
No segundo, a existência da tentação
primeira, segundo Santo André, o solícito,
como se a tentação fosse também exprimível
em tentáculos da existência e tentativas de tentativas,
assim a existência fosse uma medusa ao espelho,
com os seus cabelos geologicamente perturbados de signos
suicidas,
mas à qual devêssemos pelo menos um olhar, uma sílaba,
qualquer forma arcaica de insistir
na conveniência de não ter nascido,
como qualquer homem,
que não é de ferro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Em comunhão com ninguém



Um convento fica longe da necessidade do mundo,
mas o amor fica ainda muito para lá do convento.
É como se não houvesse estradas para amar, ou pés
suficientemente descalços sobre as incandescências
da ausência,
e a reclusão no amor fizesse ela própria votos
de pobreza extrema,
escrevesse um diário da ingratidão
com o desmazelo,
e chegasse a uma fórmula de desviver
honestamente em comunhão com ninguém.

domingo, 3 de outubro de 2010

Hipnose para principiantes




Presta bem atenção.
I shall say this only once.
La vida es sueño.
Emma Bovary c’est moi.
Sou eu mesmo que te digo
em sonhos:
I do not love you.
I love youth.
Y tú te comprometes a pagar
la diferencia entre la verdad y la maldad.
Como se houvesse uma casa no tempo
onde ainda fosse possível
pentear o desânimo
dar-lhe um look moderno
oferecer-lhe um país com piscina,
um hiato com vistas para a reconciliação.