sábado, 11 de dezembro de 2010

The blind leading the naked




Um cego é guiado pelo cão do acaso até uma praia do avesso e proibida. O cego não sabe que é cego, por isso julga que vê, mas também desconhece a existência de praias do avesso e proibidas, por isso não sabe que se encontra agora, precisamente, numa delas, com um cão que o guia, como única constatação que vive fora de si e reivindica ser o vértice do poema.
Este cego tem a sensação (no mínimo) problemática que percorreu, sobre a areia húmida, influente e tórrida de Vénus, pelo menos 200m livres, descalço, ausente, inadquirido, mas ao mesmo tempo, ignora como chegou aqui, a si, assim.
A sua época é a do desmaio e da bissectriz. A sua dança, a das intermitências das despedidas.
Como um imigrante, com características inatas e omissas, falta sempre a este cego os papéis e os ingressos para o seu dia seguinte. E ainda bem que é assim, porque no dia seguinte - estão-me agora a informar pelo auricular, da produção - o cão do acaso é abatido e o cego não aguenta a perda e morre também, agarrado ao seu dono, e a praia sai do avesso e torna-se pálida e permitida
e a história tem um fim.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

As flores do mal




O nosso annus mirabilis tinha exactamente trinta minutos de vida. Com a mão magoada pelos cristais que a delicadeza e o frio fortaleciam, pediste-me que te ensinasse o desassombro do poema de Larkin ao espelho,
enquanto o teu corpo acrescentava cães com raiva ao meu reflexo coagido, dedos de luvas cirúrgicas por todo o sítio
onde não houvesse paz
e as crianças brincassem de vez aos parricídios,
ao invés de irem dormir
com um ursinho de sangue entre as pernas.

“They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.”

Não é porque a intenção não se detecta,
que a acção mexe menos ou enlouquece ou desiste,
caída numa herança sem fundo,
doadas já as suas extremidades e as suas réplicas,
os seus pólenes, potências, e as suas expectativas,
à descontinuidade da espécie
àquilo que por aí vem
de nunca vir.

Quisemos fazer uma cópia fiel da miséria,
para a qual servíssemos de modelo inquisitivo.
Mas nem isso nos impediu
de termos filhos indetectáveis de nascença
como flores obliteradas pelo descrédito,
postas à prova em livros e cemitérios
de oportunidades vazias.

sábado, 27 de novembro de 2010

Theatrum Anatomicum




Feliz nunca é bem o termo.
Nada nunca é bem o termo, é certo,
mas feliz, menos ainda.

E é por isso que eu tenho a certeza
que o mais pequeno país do mundo
é não ser feliz
- e querer ser feliz, ainda,

é a grande moda deste Inverno,
assim como as flores que nascem
um pouco loucas na boca do pugilista,
fruto das suas gengivas sensíveis
e da face menos visível do escudo
onde está gravado o brasão
da sua falta de reservas

porque mesmo que as nossas raízes
pesem o dobro dos advérbios

é preciso pintar o mundo com clorofórmio verde
e assistir, sem hesitação, da tribuna
à autópsia de um desequilíbrio.

domingo, 21 de novembro de 2010

Arquipélago dos Falsários




A tentação banha os falsários. São três da manhã, uma hora suficientemente desonesta, mas às portas de tudo aquilo que nos é propício. Há sempre tempo, muito mais tempo às três da manhã (do que às duas, à uma, à meia-noite, etc.) num lugar onde a insignificância é posta à prova pela profissão intransigente e ofegante da vertigem: um quarto, por exemplo, barca inesgotável e multímoda, pira de detractores e omissos, sempre a primeira edição de um exemplar da História Universal da cobiça, com todas as suas páginas amareladas pelo vício, janelas e símbolos abertos para a cidade mortal.

Três horas antes precisamente, num bar, a vertigem apresentou-se ao piano como vendedora de destinos postiços, com serpentes como efeitos indomáveis nos cabelos molhados da chuva que já caía há dias e a indisciplina como um sal imaturo e munido de expectativas e castiçais; a origem aparecia-lhes em sonhos, a origem e a sua triste e louca dentição que iluminava a ofensa com o foco na oferta de uma noite diferente, divertida, numa grande cidade, onde a única coisa que fazemos bem (e às vezes nem isso) é cair e, por vezes, até por isso, equipar a ausência com um sistema de navegação oscular.

Suponhamos que se trata de um arquipélago (duas ilhas),
o arquipélago dos falsários, banhado pela tentação
(um excelente hermafrodita),
que capital servirá a república insular dos falsários?
onde ficará a assembeia provisória dos indecisos?
Perguntas pertinentes e a última, mesmo, voraz. Ligo o computador e visito a página da embaixada do Amor no Arquipélago dos Falsários, concorro a um anúncio para tradutor da embaixada e fico imediatamente nos quadros da empresa. Sorte ou Benefício?
Acham que eu falo e escrevo e domino muito bem,
quer o idioma de Amor, quer o de Falsários.
Pediram-me apenas que fizesse uma radiografia ao meu destino
e análises ao sangue da intuição.

Eu respondi-lhes que um beijo é sempre bilingue.
Não há anjos 100 % íngremes,
pássaros com uma só asa,
valores ciclópicos
como um poema
ou uma erecção.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Viagens na minha técnica




Conheço a história de alguns portugueses que foram a Espanha comprar orgulho e nunca mais de lá voltaram. Levaram consigo apenas um guião, cheio de falas e indicações para a sua nova personagem, uma muda de roupa, e os cristais sinuosos e imanentes do frio que foram acumulando, durante anos, aqui.
António José de Oliveira e Silva, por exemplo, doravante Carlos Fernández Muñoz y Marquez, recebeu instruções muito claras, mal se dispôs a partir, sobre o seu novo papel no país vizinho: usar o passado só em caso de extrema necessidade e sob as vestes intolerantes dos novos desígnios; obrigatoriedade de mudar de estilo, corte de cabelo, cor dos olhos, altura, peso, profissão e raízes; pedir transferência imediata da dor antiga para uma dor mais moderna e assertiva; mandar tosquiar os preconceitos e circuncizar as fobias; e, sobretudo, pôr a nostalgia a trabalhar em seu próprio benefício.

Jamais




Jamais, a temível capital da Terra do Nunca, não fica muito longe daqui. Aliás, nos dias sem nuvens é mesmo possível avistar Jamais, a torre mais alta da sua sé catedral, os edifícios engalanados de flautas e asas, pertencentes ao corpo governamental e diplomático do sonho, a antena vibrante das telecomunicações, a ala norte do palácio da imaturidade secular, e mais um ou dois triunfos da sua arquitectura lunática e acidentada, que se erguem contra a negatividade que a etimologia obscena depositou na sua invertebrada constituição.
Embora à primeira vista não pareça, Jamais vem descrito no mapa como a mais emancipada micro-nação de que há memória e registo. Isto porque Jamais está de tal forma encorajado a diluir-se na sua inexactidão, que nenhum mapa aponta as mesmas coordenadas para situar Jamais. Digamos que Jamais – mais do que a temível capital da Terra do Nunca – é um pequeno país incerto e itinerante, sendo este argumento ainda assim incapaz de explicar porque Jamais aparece ao mesmo tempo assinalado por todo o planeta mapeado, como se todo o planeta fosse absoluta e completamente Jamais, como queria Peter Pan.

sábado, 13 de novembro de 2010

Da decepção




Subo até ao observatório da decepção. Lá em cima faz um vento tremendo. É a culpa e os cabelos da culpa a baterem-me no rosto e a deixarem consequências, uma música infértil que se aloja na violência da cena e não me deixa prosseguir com a observação.

Se estivesse à espera de ver florestas a arder, encontraria primeiro na tua pele os patrocínios, perto dos lábios da biblioteca e da história da humidade característica de certos livros, quando são folheados com um dedo, saliva e desdém.

Mas não.
Antes que as florestas ardam, antes que te veja com os olhos mergulhados no éter e na porcelana fina, eu estou atento à decepção e só à decepção.

Passo horas, por isso, entre o charme do alcance das vistas daqui sobre toda a península da distância contrita, com todas as suas montanhas nevadas de sémen seco, com todas as suas areias movediças, mesmo correndo o risco de te perder para sempre

nalguma praia projectada a mil quilómetros deste sítio, nua, completamente nua, apenas coberta de razão
e querosene

búzios, pólvora e pormenores.