sábado, 19 de março de 2011

A minudência de um cisne




Meia-noite e a minudência de um cisne. Num determinado ângulo, a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, visível pela vibração das ondas concêntricas, que se formam quando a pedra derruba a sanidade espontânea do charco e deixa-se ir, na validação consequente do gesto, na trepidação elegante e convulsiva, na direcção mais sinistra, até ao fim, até que o atrito a separe do movimento que ela, se pudesse, manteria para sempre impingido.
E como é maravilhoso ver uma pedra deixar-se impingir.
Aproximemos, por isso, a fé da objectiva, a ganância do credo, a prática do sistema mental que o branco do cisne produz no seu duvidoso equilíbrio, como se o cisne não passasse de uma representação fria de um ansiolítico tomado a desoras, perto da periferia do nada a sua total inadequação ao tumulto e não obstante as ondas, a frequência, o imprinting, pedra-água-meia-noite-e-a-minudência-de-um-cisne.
Sejamos leais com as evidências. Foquemos o momento em que a arte radicaliza o momento da meia-noite e da minudência de um cisne, o momento em que o cosmos abre totalmente o ângulo determinado onde só é possível a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, a electrocussão de um cisne, e voltemos às 23 e 59 do cadáver do dia anterior, porque no dia seguinte é meia-noite ainda e a minudência de um cisne.

domingo, 6 de março de 2011

A estranha máquina de Romant





Cidade de Salvetski, 2275. O analista de configurações puras, Peter Von Romant, acaba de inventar um curioso engenho capaz de “extrair do mundo instantes exemplares”. Apesar da sua invisibilidade aparente, a invenção de Romant ocupa a área total do conhecimento humano da época e não foi pensada para ser reproduzida pelas técnicas gerais de representação. “A sua fisionomia – explica Romant – escapa-nos, porque nos escapam os instantes que decorrem até que o nosso cérebro forme uma imagem convincente e estável da máquina. E uma vez que os principais componentes da minha invenção são o pensamento fugaz e o lapso, torna-se inadmissível projectá-la a olho nu, senti-la ou tocá-la senão através do tacto delirante.”
“A máquina – continua Romant – é, ela própria, um instante exemplar. Ela não permanece exequível no espaço humano, porque protege uma falácia sensorial.” Se abandonarmos a retórica Romantiana e nos concentrarmos no essencial, verificamos que, de facto, a sua explicação não carece de mais dados para se afigurar deslumbrante. Mas, ao fazê-lo, ao dar-nos por decidido o trabalho da máquina em função da sua autonomia estética e vital, caímos invariavelmente num paradoxo: se a máquina de Romant é extra-temporal, quem a criou não foi Romant, que continua tão palpável e tão dentro do seu corpo incómodo e real, como qualquer um de nós, que agora se agita cada vez mais furiosamente para extrair da máquina de “extrair do mundo instantes exemplares” uma vitoriosa e definitiva concepção.

terça-feira, 1 de março de 2011

Lagos e Vacas




Se há alguma coisa verdadeiramente perturbadora, essa coisa é a actualidade. E o facto (ainda mais perturbador) de não existir, por exemplo, medicação que nos afaste um pouco dessa persistente pátria espontânea que é a actualidade de tudo e de todos, e, ao mesmo tempo, a de nada e a de ninguém.
No fundo, estamos tão sentados em cima da actualidade, como o poeta do relato de Hélder está sentado em cima da Holanda. Já sem recursos suficientemente convincentes que o levasse a tomar a decisão (ainda que teórica, apropriada) de se deslocar, ele (mantendo-se em cima da Holanda) pensa na tradição. E nós pensamos na tradição, com ele. Depois ele diz para si mesmo que é “alimentado pelos séculos, [e que vive] afogado na história de outros homens”. E nós repetimo-lo, repetimo-lo incessantemente, num estado de transe, próximo da ecolalia e dos estados catatónicos mais primários, enquanto engolimos água, e nos engasgamos com pedaços das biografias alheias que vêm dar à costa dos nossos dias partilhados.
Mas há um ponto em que, definitivamente, discordamos. Esse ponto é quando o poeta, depois de dar conta da perdição da sua alma (até aqui, não há nada a objectar), se reconhece ao encontrar, perto da sua solidão, primeiro um lago, e depois vacas.
Ora, parece-me muito pouco provável que haja lagos e vacas na actualidade.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O curativo



Noto a enfermagem nova das tuas mãos
nas minhas.
Noto na voz religiosa das ligaduras
uma vocação egípcia.
Noto na noite escura da ferida
as inúmeras luas de Betadine.

Depois, podes até acariciar a seringa.
Mas, no fim, sou eu quem te inocula o tétano
do meu sorriso.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Fobias e Semântica



A lista de fobias que podemos, por exemplo, encontrar nas regiões mais sórdidas da internet ascende ao cúmulo do credível e ofende, não raras vezes, a nossa capacidade para as verbalizarmos de forma coerente e estável. Em primeiro lugar, estão os nomes, os nomes dados a cada fobia, cuja etimologia feroz vegeta na morfologia estrábica das palavras: das mais humildes, desde a Automatonofobia, que professa o medo das representações antropomórficas (bonecos, ventríloquos, figuras de cera, criaturas animadas), às mais exigentes e sonâmbulas, como a Tetrofobia, muito enganosamente o medo do número 4, ou a Triscaidecafobia, o medo do número 13. Já o medo mediático e incomum da famosa sexta-feira 13 recebe a pomposa e dupla denominação de Parascavedecatriafobia ou Frigatriscaidecafobia.
A lista é supostamente babélica ou infinita (e tendencialmente mais impenetrável quanto mais matemática e minuciosa for a sua incidência irracional), mas haveria, com certeza, nas intenções obscuras de Borges, ou mesmo de Stanislaw Lem, o projecto ignóbil e inconsequente de a levar a cabo em vida, como se se tratasse de um dicionário extremo e ofegante, ainda que a razão lhes ditasse o caminho contrário, qual fio de Ariadne, sempre pronto a sugerir as saídas emergentes e os antónimos da perdição.
Se a fobia vista ao microscópio deixa ampliar o seu campo vocabular e semântico de batalha, ao ponto de tornar a sua leitura tão estranha e heterodoxa quanto a sua etiologia desesperada, o mesmo acontecerá quando apontamos a lente do telescópio para o Espaço, onde o medo adquire os contornos subjugados do puro medo especular?
A resposta arde na frequência casta das galáxias.
A propósito do que ficou dito - e do que forçosamente acabou de ficar por dizer - há um poema de Roberto Juarroz que nos submete ao resumo, que é uma forma mais sensata de aniquilarmos distâncias, e talvez seja agora oportuno relembrá-lo em parte:

El fruto es el resumen del árbol,
el pájaro es el resumen del aire,
la sangre es el resumen del hombre,
el ser es el resumen de la nada.

(…)

La palabra es el resumen del silencio,
del silencio, que es resumen de todo.


E se houvesse um resumo para todas estas fobias, uma fobia que englobasse todas as outras, reais e imaginárias, uma fobia capaz de reinventar fobias, micro e macroscopicamente desumanas, que nome torpe lhe daríamos, como circunscreveríamos a sua ocorrência na ordem supersónica do caos?
Deixo aqui a minha sugestão:
Sjdfkjsafykawhfaleuylesfgawegfkawefaskeufgawegkfaskegfaskefaksefaksegfasekfgaels&gfaskefgaselufgseufgaseeufgaseufgase€gasefgaseufgasezfgaseukfgasekfasekfasekfasekf#sek#fgasefgasekhfgawpaweuw.eofuqwef723087r2pq3rufq2pefy2q380f!2^ç3pqyq38fq28pe4yf,weuofawfFOBIA.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os espelhos insones



Os espelhos não dormem. Não sou eu que o digo, é Augusto Monterroso, um dos principais causadores da melhor literatura guatemalteca do século XX, num texto minúsculo – como, aliás, foi quase sempre seu apanágio.
Em “El espejo que no podía dormir”, o protagonista é um espelho de mão que associa a ociosidade e o repouso, de que tem sido vítima ultimamente (!), ao mais implacável sentimento de exclusão. Esse sentimento é agravado pela forma como os outros espelhos vêem nessa debilidade um motivo perfeito para troçar da sua inquietação infantil, minutos antes de mergulharem no seu próprio abandono, já fechados na cómoda do quarto, dentro do gavetão.
O texto termina em 6 linhas, a última palavra descreve o espelho infeliz como “neurótico” e Monterroso deixa o leitor a pensar.

Ainda que o autor sublinhe que à noite todos os espelhos eram guardados no gavetão da cómoda, para aí exercerem, completamente às escuras, a sua função ignorada – reflectirem a escuridão – eu não me conformo que a consciência os deixasse padecer assim de um sono tão descansado.
Estou certo de que a memória de um espelho não é abalada com facilidade. Durante o sonho, (porque os espelhos também sonham, libertam imagens), as coisas por ele reflectidas uma vida inteira reaparecem-lhe à tona da sua superfície gelada: restos de rostos e vidas mal maquilhadas, indecorosos fragmentos da nudez humana, pequenos crimes, saliências, pontos negros, manchas de batom, salpicos de saliva e neve falsa, a compelida contemplação de um deserto num móvel velho, o percurso do bolor numa porta fechada, a fissura crónica de um tecto, um enorme pedaço de cal que ameaça cair todos os dias, precisamente às seis da tarde…

domingo, 16 de janeiro de 2011

Lição de Suicídio



Um escritor mexicano – Juan Villoro (Cidade do México, 1956) -, ao comentar as páginas suicidas de Pavese (cf. O Ofício de Viver), afirma que este foi o retrato perfeito de um “homicida tímido”, explicando depois que no “homicida tímido” confluem todas as vocações extremas de um suicida vulgar, e ainda uma outra, secreta, solene, pusilânime, de carácter mais universal, que arrastaria, como num cortejo ébrio e afónico, o resto do mundo para o mesmo fim.
O resignado desejo cósmico de um suicida, aquele que “desearía destruir su mundo y se conforma consigo mismo”, segundo Villoro, intromete-se especificamente naquela que é, provavelmente, a melhor e mais impudica observação a respeito do mesmo tema, “O suicídio é a grande questão filosófica do nosso tempo”, nas palavras de Camus.
Ora, se houver, como julgo haver, em última instância, em cada suicida, um potencial homicida insurgente, ainda que abafado, na prática, pelo pânico logístico que implicaria um esgotamento colectivo, síncrono e coincidente, e a convicção forte de que no momento seguinte a humanidade inteira passaria a ser pó de estrelas, a sentença de Camus perde a batalha contra um pormenor (o pormenor do outro e da elisão do outro no nosso enredo) e a questão central do suicídio, tout court, passaria a ser postergada por uma espécie de filantropia infernal de que só um certo tipo de suicida exigente faz gosto e apelo.