domingo, 10 de abril de 2011

O protectorado do sono




Se entrarmos, agora, devagar, no quarto de Darkheim, Julius Dúbios Moebius Darkheim, a escuridão e o silêncio que nos acompanharam já desde o umbral e ao longo do íngreme corredor deixam a sua máscara cair aqui em desvantagem, da mesma forma que uns fios de luz da manhã, violando a persiana, se apressam a recobrar contornos e a dialogar com as formas ofegantes de um corpo verdadeiramente incluído na sua amável extinção.
Ao aproximarmo-nos da cama, vemos o corpo ignóbil e frágil de Darkheim atirado às suas circunstâncias, atravessado pelas flechas da manhã que lhe queimam as pálpebras lacradas com paixão. Vemos a desarrumação fértil dos que se entregam à hipermnésia confabulatória da morte como se fossem funcionários exemplares. Vemos um actor a dormir compulsivamente e à sua volta os lençóis vomitados, restos de alimentos imemoriais, pedaços de animais sagrados, páginas e páginas babadas de alvenaria transcendental.
Sabemos ainda que Darkheim, por exemplo, contratou quem lhe realizasse com propriedade e distinção este nada em que ele nada, imóvel e desterrado, e o mantivesse assim por vários anos, de forma a poder trabalhar mais tempo na sua obra de hipnoplastia reveladora, um palácio no sono e um monumento aos soldados mortos na guerra da solidão. Não sabemos mais nada.
“O protectorado do sono”, foi assim que Julius Dubios Moebius Darkheim quis que fosse denominado o seu território soberano dentro do Estado da Vigília Imperial. É, por isso, com um imenso pesar, que sentimos agora um breve estremecimento e o que poderia ser uma ninhada de distúrbios improváveis debaixo das suas pálpebras, que, trespassadas pelas tropas da Vigília Imperial, se descosessem e revelassem ao homem que dorme em Darkheim Darkheim precisamente acordado, e talvez por isso e pelo susto Darkheim realmente acordasse e provasse a fruta mais escassa da manhã, como o absurdo quando se veste cerimoniosamente para visitar a pobreza da sua condição.

E está tudo dito sobre Darkheim.

sábado, 9 de abril de 2011

Deficientes profundíssimos




Gosto de ver gente pálida sacudida,
agarrada ao polvo do acaso urgente
e à macrocefalia do interdito,
gente pendurada pelos lábios
ao código morse do desaparecimento,
os rostos como quedas de água incompetentes
ou atenuantes submersas da queda,
a entrarem, sorrateiramente, um no outro,
como se dentro de uma caixa negra
se pudesse misturar, agora, com a voz do acidente
a estranheza de lhe ter sobrevivido.
Gosto, ainda mais, do lago diagnosticado
nos confins das suas radiografias:
água da qual sairão amantes indefesos,
ou deficientes hipócritas e profundíssimos.

sábado, 2 de abril de 2011

Morris Mathaia Domínica



Morris Mathaia Domínica chega todas as noites a casa e brinca ao seu século XVII, com um gato que finge ser um príncipe.
As horas passadas naquele maravilhoso equívoco dão-lhe ares de marquesa de periferia, fazem-na passar por proprietária de um improvável futuro que simulasse o passado com perfeição e veneno, inscrevem-na num magnífico palácio coerente com as suas mais altas expectativas, e obrigam-na a um idioma oblíquo e antigo e a usar um longo e ansioso vestido, que, tal como um aforismo, é extensível a tudo, menos ao tempo incerto da sua terrível benevolência.
Pelo menos três vezes por semana Domínica agride o século XVII, pendura-o com uma mão e imobiliza-o perto da sua atitude raríssima, enquanto a outra mão se afunda na flor do seu mais profundo insucesso.
Domínica talvez fosse mais feliz se o exercício do seu erro se detivesse onde ou quando ela própria termina. Continuaria a ser uma valente deprimida, é certo, para quem a vida apenas é o que é, sabe ao que sabe, vale o que vale, mas talvez assim evitasse o requinte do choque que uma inteligência superior sepulta numa mesma natureza reactiva e não complicasse tanto a sua tristeza, nem tivesse tanto medo de a assumir.
Agora, depois de brincar ao seu século XVII, com um gato que finge ser um príncipe, Domínica dorme por fim.
Neste momento, Domínica sonha com a elegância negra do seu século XXV.

sábado, 26 de março de 2011

Santa Suspensão da Descrença (o caso de Maria Jaguar M.)




1. O amor mora na suspensão da descrença. Somos nós que, a certa altura, mantendo a mesma pose de vigilantes do que não auferimos, resolvemos acreditar no amor e desacreditar (nem que seja por breves momentos) na crença de que o amor é, ele próprio, uma crença, com tudo o que uma crença tem de estático e letal.

2. A certa altura da sua vida, também Maria Jaguar M. decide suspender a sua descrença. Já o tinha feito anteriormente com filmes, livros, gestos, concertos, conceitos, mas nunca com ela como autora ou protagonista, nenhuma forma que a levasse como agora ao reflexo, ao seu outro-próprio reflexo, e à árvore milenar da asfixia.
A rota arredondada dos dias, talvez, mas também a liquefacção dos trajectos de sempre, a débil companhia de uma senhora com pelo menos mais 20 anos do que ela e 200% de catolicismo.
Todas estas coisas (e outras que me não me canso de dizer) tiveram o seu peso para que Maria Jaguar M. decidisse suspender a sua descrença e acender um fósforo à porta de um labirinto.

3. O autocarro é um cavalo de chapa quente e monotonia. A manhã colide com o autocarro, que rasga as últimas partículas da noite, desmascara com o seu focinho achatado e inocente as núpcias negras dos vestígios. As pessoas colidem dentro do autocarro, sentadas com a alegre previsibilidade dos dias. Está tudo imensamente triste, mas acaba sempre por haver quem brinque com a convicção de que nem tudo está perdido. Maria Jaguar M., por exemplo, vem distraída. Vem todos os dias distraída. Nunca a vi validar o bilhete. A máquina com ela coíbe-se. Nunca a ouvi dar um passo sequer, mesmo quando sugere ser mortal, o rosto um pouco melancólico, um pouco atribulado e esquecido, entre a descrença e a suspeição de que pode, nem que seja por uma só vez e para sempre, suspender a descrença, voltar à vida. Não leva livros, pelo menos visíveis, mas é como se os levasse. Estou a ensiná-la aos poucos a descrer, a descrer mais ainda, mas a verdade é que ela também me ensina, quando descrê que eu exista na mesma perspectiva que ela queria que eu existisse, só para ela. E, por isso, suspender a descrença tem sido mais literatura que litígio. Mais perfume que consequências.
No entanto - e à hora enganadora que é -, a razão atravessa-a agora de lado a lado, como um raio de sol que movesse o autocarro para fora das leis dos transportes terrestres, abnegados e colectivos. O autocarro finge que voa só para mim. Revolta-se e voa. Dá estranhamente fé do indivíduo.

sábado, 19 de março de 2011

A minudência de um cisne




Meia-noite e a minudência de um cisne. Num determinado ângulo, a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, visível pela vibração das ondas concêntricas, que se formam quando a pedra derruba a sanidade espontânea do charco e deixa-se ir, na validação consequente do gesto, na trepidação elegante e convulsiva, na direcção mais sinistra, até ao fim, até que o atrito a separe do movimento que ela, se pudesse, manteria para sempre impingido.
E como é maravilhoso ver uma pedra deixar-se impingir.
Aproximemos, por isso, a fé da objectiva, a ganância do credo, a prática do sistema mental que o branco do cisne produz no seu duvidoso equilíbrio, como se o cisne não passasse de uma representação fria de um ansiolítico tomado a desoras, perto da periferia do nada a sua total inadequação ao tumulto e não obstante as ondas, a frequência, o imprinting, pedra-água-meia-noite-e-a-minudência-de-um-cisne.
Sejamos leais com as evidências. Foquemos o momento em que a arte radicaliza o momento da meia-noite e da minudência de um cisne, o momento em que o cosmos abre totalmente o ângulo determinado onde só é possível a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, a electrocussão de um cisne, e voltemos às 23 e 59 do cadáver do dia anterior, porque no dia seguinte é meia-noite ainda e a minudência de um cisne.

domingo, 6 de março de 2011

A estranha máquina de Romant





Cidade de Salvetski, 2275. O analista de configurações puras, Peter Von Romant, acaba de inventar um curioso engenho capaz de “extrair do mundo instantes exemplares”. Apesar da sua invisibilidade aparente, a invenção de Romant ocupa a área total do conhecimento humano da época e não foi pensada para ser reproduzida pelas técnicas gerais de representação. “A sua fisionomia – explica Romant – escapa-nos, porque nos escapam os instantes que decorrem até que o nosso cérebro forme uma imagem convincente e estável da máquina. E uma vez que os principais componentes da minha invenção são o pensamento fugaz e o lapso, torna-se inadmissível projectá-la a olho nu, senti-la ou tocá-la senão através do tacto delirante.”
“A máquina – continua Romant – é, ela própria, um instante exemplar. Ela não permanece exequível no espaço humano, porque protege uma falácia sensorial.” Se abandonarmos a retórica Romantiana e nos concentrarmos no essencial, verificamos que, de facto, a sua explicação não carece de mais dados para se afigurar deslumbrante. Mas, ao fazê-lo, ao dar-nos por decidido o trabalho da máquina em função da sua autonomia estética e vital, caímos invariavelmente num paradoxo: se a máquina de Romant é extra-temporal, quem a criou não foi Romant, que continua tão palpável e tão dentro do seu corpo incómodo e real, como qualquer um de nós, que agora se agita cada vez mais furiosamente para extrair da máquina de “extrair do mundo instantes exemplares” uma vitoriosa e definitiva concepção.

terça-feira, 1 de março de 2011

Lagos e Vacas




Se há alguma coisa verdadeiramente perturbadora, essa coisa é a actualidade. E o facto (ainda mais perturbador) de não existir, por exemplo, medicação que nos afaste um pouco dessa persistente pátria espontânea que é a actualidade de tudo e de todos, e, ao mesmo tempo, a de nada e a de ninguém.
No fundo, estamos tão sentados em cima da actualidade, como o poeta do relato de Hélder está sentado em cima da Holanda. Já sem recursos suficientemente convincentes que o levasse a tomar a decisão (ainda que teórica, apropriada) de se deslocar, ele (mantendo-se em cima da Holanda) pensa na tradição. E nós pensamos na tradição, com ele. Depois ele diz para si mesmo que é “alimentado pelos séculos, [e que vive] afogado na história de outros homens”. E nós repetimo-lo, repetimo-lo incessantemente, num estado de transe, próximo da ecolalia e dos estados catatónicos mais primários, enquanto engolimos água, e nos engasgamos com pedaços das biografias alheias que vêm dar à costa dos nossos dias partilhados.
Mas há um ponto em que, definitivamente, discordamos. Esse ponto é quando o poeta, depois de dar conta da perdição da sua alma (até aqui, não há nada a objectar), se reconhece ao encontrar, perto da sua solidão, primeiro um lago, e depois vacas.
Ora, parece-me muito pouco provável que haja lagos e vacas na actualidade.