terça-feira, 23 de agosto de 2011

A sala vizinha



A sala é uma nave temporal e o imóvel (se existir o imóvel) viaja a uma velocidade constante e arrependida. A minha imobilidade é outra acção, uma acção superior à acção da sala, um palácio que fosse o fogo e o resultado de todas as forças em equilíbrio, num hostil e precário equilíbrio pela impossibilidade de te ver agora, ouvir a tua voz agora, friccionar a tua imobilidade agora, olear esta inércia de códigos proibidos.
A sala, apesar de tudo, apesar do seu ritmo involuntário e constante, apesar da sua aparência de sala e só de sala, apesar da sua pertinácia objectiva, apesar da sua taxidermia de sala, apesar do aspecto de animal minimal empalhado e acrítico, apesar da magreza dos adjectivos, de todos os adjectivos, a sala, esta sala, conduz-me até ti.
Porque não é o espaço que conta num país tão pequenino como o nosso. É o tempo. E há sempre salas ou coisas como salas que se dirigem estaticamente e se desprendem do tempo infinitamente para ti. E em alguma delas vou eu. Um poeta musculado pelo atrito.
O resto é feroz simetria.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

The living room



A insolência não se lembra de ter oferecido à insónia um tratado de insalubridade geral, e a sala é o meu termo, o meu trono, e o meu trauma. A sala reage à minha chegada, com a mentalidade ruidosa das madeiras e os estalidos próprios dos objectos que dormem eternidades. Tudo indica que ainda é pouco para que a miséria seja mítica e descrita com a retórica da sua melhor importância. Mas o silêncio, essa minúscula súplica, inunda a sala de imóveis divergências e fulminados realces. Há também um alfabeto antiquíssimo, cada segundo que passa. A sensação da nudez impassível do indecifrável. Uma monótona e viscosa mastigação. E a aridez máxima dos planos. A tragicómica geometria vagamente descontrolada, a bancarrota da vontade e, no entanto, a minha chegada àquela sala, como se o destino não fosse feito para ser desenhado mas contornado depois de alguém o desenhar.
Na sala, a pobreza age como uma amante. Na sala, a noite veste uma lingerie especial. Na sala a vida vem em itálico, a morte fica sem efeito e a tristeza é servida com champanhe. Na sala, na sala.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pareidolia




Lembro-me de ser pequeno e ver almas mortas nos realces apócrifos dos cortinados, batalhas nas rachaduras e nas humidades dos tectos, inscrições diabólicas nos nós da madeira dos móveis, e novas possibilidades de vida na sombra cruzada dos objectos que me definiam. O termo “pareidolia” foi o melhor que a ciência encontrou para designar este fenómeno que, ao que parece, oscila entre o aleatório e o significativo, o lúdico, o neurótico e o espiritual, uma qualquer sorte de vocação degenerada para vermos no que está aquilo que não está e vice-versa, num interminável jogo de luz e sombra e reflexos alienígenas.
A inocência – é sabido – é uma forma de arte subliminar que nega o mundo para poder subsistir. Nela se confundem e confluem o mais frágil empirismo e a rejeição fervorosa e incauta da queda. A inocência só vê o que quer ver, só ouve o que quer ouvir. Autoproclamada e insincera, a inocência é uma nudez muito íngreme, incapaz de ser vestida pelos melhores designers do evidente.
Um dia, fiquei curado da inocência. Ou assim julguei. Um cortinado era apenas um cortinado, com os seus relevos ridículos. Um tecto manchado era só um tecto manchado. Os nós da madeira, só os nós da madeira, e a sombra cruzada dos objectos, casualidade e antipatia.
Mas mais tarde a doença cumpriu com o que prometera e voltou a visitar-me. Uma pareidolia em segundo ou em terceiro grau começou a assombrar o meu espírito. Foi quando li e compreendi que Pierre Menard era de facto o autor de Dom Quixote e não esse farsante do Cervantes y Saavedra. Foi quando percebi que não era Anna Alkma que amava, mas a bissectriz formada pelo ângulo agudo de sombra e luz que se interpôs entre Anna e eu. Foi quando, na balança atómica do meu umbigo, voltou a pesar mais o aleatório e o significativo, o lúdico, o neurótico e o espiritual. Foi quando, pela primeira vez, fiz amor com a tua forma ausente e parti os espelhos todos do respeito pelo impossível.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cianuro




Dempsey, o grande Dempsey Denial, agarrou no último número da revista “Cianuro” e sentou-se com um copo de champanhe numa cadeira que ardia debaixo do caramanchão. A tarde escoava por um orifício secreto, o vento dedilhava nas cartilagens do silêncio uma música pálida, quase inaudível, que o sol ao morrer despenteava no incerto, e Dempsey estava confortável dentro do seu 14755º dia de vida. “Cianuro”, a revista de arte escabrosa e literatura acidental que Dempsey folheava, trazia agora um suplemento dedicado à paisagística sentimental, com ilustrações de um tal Phoekus Phantash (um pouco mórbidas e pouco nítidas) e palavras de Rome Jus Van-Van, pseudónimo literário que Dempsey um dia atribuiu à imagem que sempre fez de si mesmo.
À medida que o álcool, o gás e o milagre dourado do champanhe congestionava o cérebro de Dempsey, naquele final de tarde imperial e dorido, à medida que relia e molhava os olhos nas palavras selvagens que ele – sob a autoridade de Rome Jus Van-Van – assinara diabolicamente ao lado dos desenhos desfigurados de Phoekus Phantash, um sorriso carnívoro foi-lhe nascendo primeiro a partir das comissuras dos lábios, alastrando-se depois a toda a península facial, desenhando pequenos rios de sangue à superfície.
É que Dempsey sabia que, para além do insondável Phoekus Phantash, todos os outros colaboradores da “Cianuro”, Manuel Feist, Carlos Columna, Raquel Realce, Alfred Prufock, Roberta Cajal, Evangelio Arte-Enrique, eram criações suas. Assim como o director, Douglas Datsun Jr., a amante do director, Fabrizzia Flame, o neto mais novo do porteiro da redacção da “Cianuro”, Joyce Emmanuel, até Nídia Witt, a mulher da limpeza a quem todos os dias Dempsey dava os bons dias, também ela era Leonor Nieves na vida real, artista de rua muito íngreme, VIH positivo, musa das ovulações imperfeitas.
E depois de pensar nisto, e já a bordo da grande fadiga do mundo, Dempsey passou pelo sono e sonhou que acenava aos seus leitores com desprezo.

sábado, 30 de julho de 2011

Bucareste



À falta de vampiros e adjectivos,
Bucareste dormia com a complacência
de uma vítima cercada pela sua pose mais bela.
Bucareste sonhava que era Estocolmo
sob a forma de síndrome, em Bucareste.
E que o nevoeiro, essa língua franca e letárgica,
latina, espessa, bífida, sempre adjacente ao brilho,
como os gatos à constatação da festa,
sempre tão desassossegadamente quieta,
para além do Dâmboviţa, banhava Bucareste.
Bucareste sonhava consigo em Bucareste,
mas era já demasiado tarde
para que se apercebesse de si,
consigo em Bucareste
e, por isso, não sonhava
bem consigo em Bucareste
mas com o reflexo de uma Paris
estacionária e raquítica.
De repente, é como que se dois desencontrados sofressem
a mesma esquina.
De repente, é como que se a vida fosse de facto difícil,
mas difícil com sabor a morango e baunilha,
difícil com tremendos trejeitos de alegre.
De repente, Paris desaparece. E só resta Budapeste.
De repente, os desencontrados acendem
tudo aquilo que os separa de tudo
aquilo que os separa de sempre. E friccionam a pele.
De repente, os prepúcios do acaso
sangram e rompem
desrespeitando completamente
a vulva do magnífico.

sábado, 23 de julho de 2011

Os desequilibristas



Admiro a arte menor dos desequilibristas.
Dão-lhes um rumo, um método, um fio
suficientemente largo para a passagem,
tão breve, da vida, tão breve,
mas mesmo assim eles ousam desafiar o fio,
eles promovem a estreiteza no máximo
da largura possível, eles imaginam,
por exemplo, 400 quilos sobre um fio,
um touro sobre um fio, por mais largo que seja,
cai na indisciplina
e na mais brutal transparência
e eles com tesouras no sorriso
celebram
a sua magnitude mínima.
Os desequilibristas endossam o mundo.
Precavêm-se da impossibilidade do paraíso.
Filhos da tontura, netos do improviso,
os desequilibristas aprendem a cair,
ensinam a cair, sem, no entanto, se deixarem levar
pela insalubre omnipresença da queda.
É que os desequilibristas caem noutra queda.
Aquela que origina sempre
novos desequilibristas
e quedas por vir.

sábado, 9 de julho de 2011

Carlos Klenner



A Singapura fica muito longe para quem não tem asas e passa o resto da sua vida numa história situada num único país, provavelmente inventado à pressa, por meras questões de timing editorial e enfoque estratégico. Ou então: a personagem secundária de um livro queixa-se do determinismo da diegese e bate às portas do capítulo errado, o único em que está viva e enterrada para sempre.
O autor, entretanto, dorme sobre a proposta de outros livros, novos temas. Ressona como quem faz poemas ou amor consigo mesmo em apneia. Não acredita que aquela personagem volte a aparecer.
No entanto, por motivos que excedem a razão e excitam a controvérsia, um dia a personagem secundária desse livro resolve arrombar uma das portas do capítulo onde está oportunamente encerrada na mesma fala há séculos.
A sua terna descrição é sumária e a sua intervenção, relapsa na dureza do romance, não tem pretensões vitalícias, nem instintos programáticos excelentes. Mesmo assim, é provável que Carlos Klenner encontre uma mulher. A mulher que ama loucamente Felipe Espiritu Santo de Saavedra. Mas é possível também que durante o tempo em que Margarita Von Haff sacia o quotidiano, vai à rua, por exemplo, tomar café, pagar as contas, comprar leite, carne e alface, à farmácia, ao notário, ao parque municipal, ao ginásio, às aulas de equitação do comportamento, é possível que Carlos Klenner lhe apareça à frente, mais do que uma vez até, e consiga desviar o eixo gravitacional do romance e com ela prepare uma morte formidável para Felipe Espíritu Santo de Saavedra e abalroe novos capítulos e novos encadeamentos e já nada do que então era seja o mesmo, nem mesmo Klenner, Margarita, ou o novo romance que o autor adormecido mantém temporiamente com Nastenka.