domingo, 16 de outubro de 2011

Carlos Duende Palacios



Carlos Duende Palacios tinha uma certa relutância em acreditar que existia. Por vezes, chegava mesmo a desacreditar nos seus pés, ou nas suas mãos, ou nas frases que acabava de ouvir de si, como uma evidência sagrada e assassina, e a negar o eco do passado e as medidas de uma identidade já de si desidratada e faminta numa fracção de tempo imperceptível e durante toda a tarde incrédula.
A forte e cada vez mais perversa colonização do corpo por esse sopro de ausência atribuída levou-o à desacreditação total dos mecanismos de representação da existência e depois, como não podia deixar de ser, à tão esperada certeza de ter deixado de vez a estação do sentido, dirigindo-se desordenadamente para nenhum sítio, atravessando como um bêbado solene as persistentes fronteiras do adeus.
Palacios viveu morto nessa certeza até morrer efectivamente, segundo os cânones da época e o pacto entre a realidade e a resolução magistral do incorrigível. Mas porque ninguém acreditava que Palacios pudesse estar de facto morto (mesmo quando Palacios existia), nunca ninguém deixou Palacios morrer de facto e existir na falácia daqueles que sabiam que, de facto, Palacios tinha morrido.

sábado, 8 de outubro de 2011

Albert Albrecht



Hoje, Albert Albrecht não sente o mesmo domicílio, a mesma certeza. Quer dizer, não é bem Albert Albrecht. É um vizinho de si mesmo. Por isso, não sei se podemos realmente falar de Albert Albrecht ou de alguém que encarna Albert Albrecht neste dia, alguém que sintonizou Albert Albrecht, como quem sintoniza um humor repentino, deita-se na banheira às escuras e espera que o resto traga na espuma a manhã do pensamento hardcore.
Pondo as coisas noutra perspectiva: ainda que consciente de tudo isto, Albert Albrecht não sabe como nem quando sofreu essa deslocação, esse incentivo de si para si. Com a noção temporal asfixiada e desiludida, Albrecht decide eternizar esse dia – o dia em que já é não bem Albert, mas um vizinho de si – e começa a vender o segundo ao preço do século com a naturalidade de um velho domador de circo.
Hoje, Albert Albrecht agarrou-se de tal forma à sua própria conveniência que quase lhe ia partindo os limites. Tomou as cápsulas de lirismo bem cedo, felicitou o seu corpo fervoroso com tenacidade e usura repentinas e releu o irrepreensível salmo que o tornou possível, apesar da chegada ausência de si mesmo. Depois, Albrecht fez-se à rua, já com os paramentos do sucesso e o milagre implícito da sua nova auto-estima.
Nessa mesma noite, na noite desse dia infinito, Albert Albrecht conhece Narcisa. De bar em bar, tornam-se mais e mais propícios para arrombar a casa da tentação que os vitima e mobilar de pássaros os nexos da destreza. Deram inutilmente e várias vezes as mãos. Engoliram cerca de 35 cl de saliva. Entornaram vinho com competência e alegria, nunca paz.
Nesse dia, alguns anos passaram. Albert Albrecht estava de facto livre do acontecimento vazio que era ele próprio antes de o ser, mas só até se dar conta de que tinha perdido a sua outra imagem nas equânimes águas de uma nova deslocação. Agora, Albert Albrecht Stimmel era já parte de um incentivo de si para um outro fora de si mesmo, e, pela primeira vez, esqueceu-se do seu verdadeiro acontecimento.
Narcisa fê-lo muito infeliz e para sempre, e o único filho que o casal teve padecia (e padece ainda) de nunca existir.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

María Valencia Insignia



María Valencia Insignia. O corpo condecorado de sal. Não demorou muito. Não demora muito, normalmente. As certezas têm mil patas e asas. As certezas são insectos a sul de todas as eventualidades possíveis. As certezas matam um homem em menos de um hino, que é a partícula de tempo imediatamente inferior ao instante abissal. E a evidência viaja à velocidade da luz. E o sal deposita-se no fundo, tão insolúvel e estéril como o enigma do olhar e o rosto aflito, a pose pretensamente indelével, pouca ou nenhuma maquilhagem visível, não fossem os demónios às avessas e às cegas conferir ao número um tom difícil, negro e difícil, com as secreções todas em teu poder, María, com a facilidade com que encarnaste o complemento directo numa frase onde o sujeito era a vítima. E eu, casualmente, o vilão.
Amar é defender a tese da nudez antes mesmo de esta ser vista. Numa rua deserta, alguém apregoa o impossível. É cálculo divinatório cheio de probabilidades de falhar, mas sem nenhuma inveja ou medo do dia seguinte. É humano, como as fezes. Mas é também eco da distância e a soma mais bela que se conhece de insucessos astrofísicos. Por isso eu não respeitei o teu credo, María. E depois de termos arrumado os teus estorvos e os meus, fomos brincar para onde a culpa beija a mais anaeróbia mentira.
Nus, necessariamente nus, em Marienbad.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Realidade



Enquanto o Verão termina, com a ternura patológica de uma amante sem braços, ouço contarem-me a história de um antigo rei louco que fabricava realidade. Parece que à medida que ia enlouquecendo mais e mais, o rei adquiria também mais poder, conhecimento, ouro, sábios e laboratórios sofisticados, o que lhe adiava consequentemente a queda abrupta na imbecilidade total. Mas nunca chegava a curar-se. O saldo era sempre positivo para o lado da enfermidade e o poder, o conhecimento, o ouro, os sábios e os laboratórios sofisticados detinham-se invariavelmente diante de cada crise do monarca.
Um dia, o rei tornou-se dono do planeta, governador da natureza e depositário do acaso, e a realidade deixou de ser um propósito real.

domingo, 18 de setembro de 2011

Vlad e Muriel



O paradoxo é conhecido. Pode uma força constante e insubestimável suscitar algum tipo de efeito físico num objecto infinitamente inamovível? Vlad e Muriel acreditavam que sim. Estavam espontaneamente perdidos numa floresta de convenções, arame farpado e vigilância sublime, a noite era como um mapa que mudasse ao segundo de rosto, sentido e leituras possíveis, mas alguma coisa os levava a que permanecessem ali, na inexactidão primordial de uma justificação vazia, debaixo de uma queda de água negra formada pela irresolução, pelos temíveis ventos que sopram nos arredores do livre-arbítrio e pela recompensa romântica de se julgarem atravessados pela singularidade de um reino.
Apesar dos limites muito pouco generosos da floresta, o seu desencontro tornou-se rapidamente crónico e era explicado, na época, por uma inevitabilidade reactiva: enquanto Vlad pensava deslocar-se de X para Y, Muriel ficava temporiamente incapaz de imaginar Y e vice-versa, tornando impossível a simultaneidade espacial e a deslocação ainda que microscópica da sua desejada intersecção no permitido.
As horas, os dias, as semanas e os meses passaram e nem Vlad nem Muriel viram mais a luz do dia, nem de si próprios obtiveram o espanto que a visão e o tacto do outro segregam, nem por alguma qualquer probabilidade mínima, num ponto onde o inverosímil negoceia com uma pequena distracção da certeza. Nada. Mas eles continuavam ali. À procura de uma resposta solúvel nos seus zero por cento. A fabricar o veneno e o antídoto mais potentes, as jogadas mais nuas e vestidas, habituados cada vez mais a não serem. Foi quando o paradoxo desapareceu.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Museu de História Artificial


Um homem acorda, abre as portas do seu museu de História Artificial. Dirige-se ao quadro da luz. Acende mais de um bilião de lâmpadas com o sorriso. O museu ilumina-se. O homem ilumina-se. Reconhece o cenário da noite anterior. Por toda a sala, o seu quarto é projectado de uma forma muito vívida, mas sem muitos dos pormenores com que um olhar exterior poderia articular uma outra impressão. Para ter acesso a tudo, para obter a versão integral e em HD da sua noite anterior, sem as falhas a que normalmente está habituado que a sua memória o limite, este homem deveria ter dormido mais, bebido menos, e sobretudo não podia ter sucumbido tão cedo ao arrependimento, que o entregou imediatamente ao mais imerecido declínio.
Ao fundo da sala, uma cama alvoraçada, como as chamas quando o fogo é forte e egoísta. A curiosidade é o telescópio instantâneo da vontade e a inconveniência de olhar de si para si, do seu eu mais velho para o seu eu mais novo, traduziu-se numa aproximação lenta ao leito daquela morte pequenina. No segundo seguinte, vê-se a ele mesmo na cama com Romínika. A ondulação louca dos lençóis fez embaciar a objectiva. Uma pequena praia de nudistas é agora atingida pelo protagonismo de alguém que, do futuro, torna-se presente, extremamente presente, ao ponto de apontar a pistola aos dois e a decisão (também apontada, mas para si próprio) de se suicidar a seguir.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sinais inflamatórios vários



Para a tua pergunta adesiva eu tinha a resposta inflamatória do âmago, um príncipe pardo na ponta da língua com uma proposta monumental, três ou quatro metros quadrados de sílabas que passado um segundo já nada significavam, a difícil manutenção do meu olhar precipitado enquanto falavas, falavas, como se falar fosse a única forma adequada de sustentação, de apaziguamento terrestre, de gravidade seleccionada, tu falavas e eu escondia-me atrás da reputação sólida das tuas palavras, deitado no divã da recepção, presente, mas atrás do diálogo, só para te ver falar, tirava o som do teu ser e ficava a ver-te falar, os lábios a mastigarem silêncios e realces (e a própria mudez artificial), os dedos que dançavam entre os dédalos e os privilégios do acaso, segurando um cigarro ainda intacto, os magníficos vitrais na abóbada de um gesto menos pensado, a grinalda do sopro que chegava, apesar da fonte inaudível, a tocar as minhas mais profundas convicções imorais.