sábado, 5 de novembro de 2011

Rita Riulk 3.0 Galaxy



Rita Riulk 3.0 Galaxy é um protótipo pós-humano, do sexo feminino, com a idade permanente de 27 anos e 173 dias. Neste momento, Rita está escondida com William Trash, o seu pai cibernético e totalitário, a mais de 300 metros de profundidade. Trash desenhou um palácio de galerias infinitas debaixo do deserto de Vaanh e contratou uma vasta equipa de súbditos, entre os quais está o Conselho dos Ávidos, violentos intelectuais e publicitários que configuram o núcleo duro do sistema Trash, sem outra pretensão, no entanto, que a de conquistar uma alternativa à inércia do real.
Ali, a mais de 300 metros de profundidade, quando os engenheiros deram por terminado o trabalho, William Trash autoproclamou-se rei daquele estranho microestado mental, constituiu uma empresa, pôde suportar as despesas para a licença, as escavações, ideou a arquitectura escrupulosamente minóica do palácio e deu emprego a 194 pessoas que antes se desperdiçavam entre a desocupação e a embriaguez geracional.
Ali, a mais de 300 metros de profundidade, William Trash conheceu Rita Riulk, responsável pelos recursos humanos da sua micro-nação. Envolveram-se num episódio tão severo de paixão e impunidade, que a certa altura Trash teve mesmo de a matar.
Ali, a mais de 300 metros de profundidade, Trash ressuscitou Rita Riulk, depois de passar 59 horas consecutivas fechado com o cadáver no seu sofisticado laboratório real. Dali saiu, já com outra vida, Rita Riulk 3.0 Galaxy. Uma mulher sentada para sempre nos seus extraordinários 27 anos, remasterizada pela música da sua segunda e mais veloz oportunidade vital, programada para acatar a sua condição.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Wienlaand, o ácrata



Wienlaand entra em casa. Acende a luz e diminui a escala do mundo para ter a sensação de o alcançar. Descalça-se para sentir melhor a pertença e a pele da pertença que, ainda assim, é pertença em negação. A pertença transmite-se pelo contacto contínuo e nu dos seus pés com o chão, tocar a Terra em directo, diz ele, ainda que viva num 13º andar, como os homens tocaram a Lua, em directo, ainda que através dos fatos de astronauta e às custas da gravidade extenuada, talvez tenha sido, e precisamente por isso, um toque mais educado, um toque com aquele tipo de educação que a sensualidade, que é interesse ornamental, sabe transportar.
Wienlaand já não é novo. Cresceu-lhe um pesado lombo de peixe da cintura para baixo e arrastar as barbatanas pelo chão já não o comove tanto como quando pesava 70 kg e era ele quem desenhava a sua fala e os seus actos, e não um guionista qualquer ou um inútil engenheiro da vida dita vulgar. Além disso, a ligeireza dos dias ofende o fantasma permanente do seu tacto. Era uma vez a motricidade fina e a subtileza sussurrada. Era uma vez a capacidade para se reter todo dentro de si e esperar ansiosamente pelo fim-de-semana para se livrar do Dr. Jackyll e revelar o Mr. Hyde. Agora, pelo contrário, é Mr. Jackyll e Dr. Hyde, e todos os dias da semana. Um cocktail de nações rivais servidas como aperitivo para o descalabro.
Wienlaand, ainda assim, despe a gabardina, cospe o gabarito e o garbo, para se certificar que a nudez, pelo menos aquela nudez, o aplaude na perfeição. Tresanda a whisky e horas desperdiçadas para ganhar dinheiro que lhe permita desperdiçar outras tantas. Os músculos estão frustrados e o corpo todo exige-lhe o centro da Terra, máxima gravidade que contraria com um repentino salto do invólucro para a vida verdadeira e inactual: Wienlaand atravessa cambaleante o corredor como um atleta de movimentos desirmanados e dirige-se ao quarto, à varanda do seu 13º andar. Quer rescindir completamente o contrato que o mantém vivo todos os dias naquelas horas anteriores à sua aparição extraordinária. Quer lavar todas as suas antinomias com a água gelada do impacto com o chão, o outro chão. Quer matar-se pela metade. Atirar metade do seu corpo pela varanda, apagar o seu falso realce, as marcas da empresa onde trabalha, o comité dos simulacros internacionais. Wienlaand quer sobretudo ser esbofeteado pela não coerção.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A minha avó



A minha avó costumava contar histórias assim. Ela era perita no fim do mundo e achava estranho ter nascido com um pé dentro desta espécie e o outro, visivelmente deslocado, na boca mórbida da suspeita e no sexo ufano da ironia. A minha avó passava o tempo a coser mentiras umas às outras, criou o crochet cruel das minudências, e ainda se dava ao luxo de povoar essas mentiras de pássaros orientais, paisagens soberbas onde a serenidade e a percepção sofriam os ventos mal representados da hesitação sombria. A minha avó contava-me contos distópicos antes de eu dormir. Sentava-se na cama e falava da falência da Terra, do advento do cripto-individualismo, da comicidade com que, tantas vezes, se reveste a distorção do real, como, por exemplo, na “demonização baudelairiana do riso”. Dizia poemas onde a guerra e o bom senso amavam-se para sempre e a era da demência era mundialmente aplaudida. E por vezes, perguntava: queres que eu te leve a este planeta? Ou preferes ficar esta noite apenas na casa escura do ensino? Falava exactamente assim. Por intermédio de uma rede organizada de metáforas e tiques da elevação do estilo, levemente apoiada na sua língua bífida e sibilina, nas encostas de um português com 35 % de sotaque romeno e 65% de sotaque desconhecido. Falava assim.
Eu tinha 39 anos naquela altura, quase todos os dias 39º de febre e queria muito dormir. Mas, naquela noite, por mais que a senhora se esforçasse, eu não conseguia. Resolvi recorrer ao serviço de avós ao domicílio, secção avós distópicas para netos cínicos, Avenida Marqués del Abandono, Ciudad Irreal.
Vou protestar, pensei. Vou exigir uma avó nova ainda esta noite. Uma que me conte histórias do princípio. Mas entretanto, adormeci.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A vida microscópica dos acontecimentos



Por razões que só daqui a muitas eras poderemos julgar compreender, a superfície da Terra tinha-se estilhaçado, ao ponto de formar mais de 7 biliões de minúsculas ilhas, nenhuma maior do que um abraço dado por um adulto médio a si mesmo. Mas como a catástrofe foi subtil, ocorrendo tudo à velocidade da luz e na vida microscópica dos acontecimentos, nada de muito súbito fora anunciado nos jornais desse dia. As pessoas mimetizavam o mundo antigo, mentalmente. Só isso. Andavam essencialmente distraídas.
Dessas mais de 7 biliões de almas que ficaram à deriva no infraoceano do seu descontentamento, apenas 3 milhões tiveram a sorte de calharem em ilhas contíguas, pensa-se que por estarem a beijar-se sofregamente quando aquela parte do mundo morreu.
Contudo, nenhum destes 3 milhões de potenciais melhores sobreviventes sabe muito bem o que fazer com o outro. Passam os dias na maior estranheza vizinha, mesmo quando apanham a mesma premissa para o mesmo pensamento ou grunhem qualquer coisa que se entrelaça foneticamente com a canção que um deles costuma trautear para espantar o suicídio.

domingo, 30 de outubro de 2011

Saint-Anne de la Nuit



Sou pago para revelar o núcleo do sono e escrever a mais bela biografia inerte de Sainte-Anne de la Nuit. O meu trabalho é muito simples: consiste apenas em apreender as imagens que o corpo inapelável da santa segrega, enquanto o sono a sustenta através de finíssimos fios. E observar a expressão de um corpo desintegrado, atirado ao falso desinteresse que dizem demostrar por simulacros os ávidos corrigidos.
É mesmo muito simples, repare: eu sou pago para lamber a história de ninguém. Sento-me todas as noites confortavelmente numa cadeira, junto da cama onde estão os restos imortais de Sainte-Anne de la Nuit. As velas estão acesas e o silêncio, porque está próximo da voz de um animal extinto, solta uma brisa benevolente que expira impropérios, beija as chamas e torna as suas sombras na parede da caverna de qualidade muito superior à verdade propriamente dita.
Para alcançar o grau de santa, Saint-Anne de la Nuit só teve de ser boa em toda a extensão da noite e do dia, e, na altura do realce, ter um pé descalço espetado no vértice da partida e o outro mergulhado no tétano do êxtase.
Repare, é mesmo muito simples: eu sou pago para aprender o que da noite de De la Nuit continuamente se desprende e desdiz, a técnica daquela desmotivação parturiente, e observar o seu corpo nu, minuciosamente pousado no desdém, datado e assinado pelo infinito.
É claro que amo o que faço. Todos os dias vigio um corpo - percebe isso? - comento a sua nudez coberta de morte relativa, além de ter uma enorme permissão científica para o investigar, mexer, punir, instituir e destituir, é já inútil demonstrar por A mais B que aquele corpo não existe, lutar dignamente contra a sua terrível simetria.
Tenho de lhe contar só mais isto: há dias em que uma lenta e imóvel sublevação no seu sono conduz-me depressa ao incensado desatino; há dias em que a sua tomada de posição é tal perante a verticalidade ridícula da vida que sou eu quem se desintegra nessa tonelada de indiferença e areia que os mortos fingidos costumam vestir por cima da inutilidade fácil do seu marfim; há dias em que assisto ao hastear da bandeira da república popular da entropia, à proclamação da capital do desejo na praia privativa dos meus dedos, últimos habitantes das suas ilhas inadmissíveis.
Nesses dias, espero pacientemente a noite, e mal a invenção humana abandona totalmente o museu, deixo simplesmente de escrever, de resistir. Deixo as minhas roupas escorrerem pela cadeira, levanto-me, aproximo-me da cama e deito-me nu com Sainte-Anne de la Nuit.

domingo, 16 de outubro de 2011

Carlos Duende Palacios



Carlos Duende Palacios tinha uma certa relutância em acreditar que existia. Por vezes, chegava mesmo a desacreditar nos seus pés, ou nas suas mãos, ou nas frases que acabava de ouvir de si, como uma evidência sagrada e assassina, e a negar o eco do passado e as medidas de uma identidade já de si desidratada e faminta numa fracção de tempo imperceptível e durante toda a tarde incrédula.
A forte e cada vez mais perversa colonização do corpo por esse sopro de ausência atribuída levou-o à desacreditação total dos mecanismos de representação da existência e depois, como não podia deixar de ser, à tão esperada certeza de ter deixado de vez a estação do sentido, dirigindo-se desordenadamente para nenhum sítio, atravessando como um bêbado solene as persistentes fronteiras do adeus.
Palacios viveu morto nessa certeza até morrer efectivamente, segundo os cânones da época e o pacto entre a realidade e a resolução magistral do incorrigível. Mas porque ninguém acreditava que Palacios pudesse estar de facto morto (mesmo quando Palacios existia), nunca ninguém deixou Palacios morrer de facto e existir na falácia daqueles que sabiam que, de facto, Palacios tinha morrido.

sábado, 8 de outubro de 2011

Albert Albrecht



Hoje, Albert Albrecht não sente o mesmo domicílio, a mesma certeza. Quer dizer, não é bem Albert Albrecht. É um vizinho de si mesmo. Por isso, não sei se podemos realmente falar de Albert Albrecht ou de alguém que encarna Albert Albrecht neste dia, alguém que sintonizou Albert Albrecht, como quem sintoniza um humor repentino, deita-se na banheira às escuras e espera que o resto traga na espuma a manhã do pensamento hardcore.
Pondo as coisas noutra perspectiva: ainda que consciente de tudo isto, Albert Albrecht não sabe como nem quando sofreu essa deslocação, esse incentivo de si para si. Com a noção temporal asfixiada e desiludida, Albrecht decide eternizar esse dia – o dia em que já é não bem Albert, mas um vizinho de si – e começa a vender o segundo ao preço do século com a naturalidade de um velho domador de circo.
Hoje, Albert Albrecht agarrou-se de tal forma à sua própria conveniência que quase lhe ia partindo os limites. Tomou as cápsulas de lirismo bem cedo, felicitou o seu corpo fervoroso com tenacidade e usura repentinas e releu o irrepreensível salmo que o tornou possível, apesar da chegada ausência de si mesmo. Depois, Albrecht fez-se à rua, já com os paramentos do sucesso e o milagre implícito da sua nova auto-estima.
Nessa mesma noite, na noite desse dia infinito, Albert Albrecht conhece Narcisa. De bar em bar, tornam-se mais e mais propícios para arrombar a casa da tentação que os vitima e mobilar de pássaros os nexos da destreza. Deram inutilmente e várias vezes as mãos. Engoliram cerca de 35 cl de saliva. Entornaram vinho com competência e alegria, nunca paz.
Nesse dia, alguns anos passaram. Albert Albrecht estava de facto livre do acontecimento vazio que era ele próprio antes de o ser, mas só até se dar conta de que tinha perdido a sua outra imagem nas equânimes águas de uma nova deslocação. Agora, Albert Albrecht Stimmel era já parte de um incentivo de si para um outro fora de si mesmo, e, pela primeira vez, esqueceu-se do seu verdadeiro acontecimento.
Narcisa fê-lo muito infeliz e para sempre, e o único filho que o casal teve padecia (e padece ainda) de nunca existir.