sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Linda Helmut Falls



Linda Helmut Falls aproxima a sua arte do fogo gelado do quotidiano e desloca-se sobre a incompreensão. Ela sofre de um gravíssimo transtorno de ansiedade e a qualquer momento podem surgir no seu corpo manifestações mais ou menos caóticas de uma crise anunciada, óbvios sinais de derrota homeostática transformados em quistos, apêndices, edemas, montículos, tentáculos, feridas abertas e inadvertidas cicatrizes imperiais, que nos chocam mais pelo modo como assinalam a sua supremacia arbitrária do que propriamente pela sua complacência irreal.
Há dias, em que os efeitos empreendidos pelas somatizações no seu corpo são tão radicais que ela acorda com os olhos nos joelhos, um minúsculo braço definhado nos lombares, dois dedos implantados na nuca de forma perfeitamente extravagante, unhas encravadas no desejo, pestanas no palato, uma vagina suada na palma da mão e uma boca na planta dos pés, com os lábios vermelhos muito pintados, como que para marcar o caminho de volta ao estado normal.
Mas a aparatosa arte de Linda não vende. Os tempos mostram-se mais propícios a interrogá-la como uma curiosidade ou uma aberração e a crítica recusa-se a ver nesta amálgama de erupções e deformidades um grito mudo da inocência rebelada de uma mulher que, mais do que uma vítima da estranheza incapacitante, é uma artista involuntária da sua terrível condição.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma noite em Schadenfreude



Se um dia visitarem o país gelado da Inveja, não deixem de passar uma noite em Schadenfreude, uma pequena povoação nas margens do rio Nacht, conhecida pelo prazer mórbido que experimentam os seus habitantes ao constatarem os fracassos e as desgraças dos seus conterrâneos, tudo isto envolto numa atmosfera de festa, névoa e ingenuidade etnográfica.
Não se sabe ao certo quando é que esta tradição irrompeu do manancial de lendas que assombram desde tempos imemoriais a região. Contam os antigos que um dia um forasteiro, ao passar pela cidade, perdeu o controlo do carro e atropelou uma criança sobrenatural. A tremer, com o coração estrangulado, o forasteiro saiu cambaleante do carro e aproximou-se da criança para a tentar socorrer e salvar. Ao vê-la resignada à excepção, desistida e triturada, o homem começou a rir sem parar, o que mais tarde viria a prejudicar seriamente a audição das suas declarações em tribunal, mas que, por outro lado, lhe valeu um lugar amplo e sossegado num asilo de montanha, ao invés das minúsculas cloacas prisionais. A partir desse dia, Schadenfreude ficou assombrada pelo fantasma do forasteiro e da criança sobrenatural. Um pouco por toda a cidade, as pessoas começaram por se sentir atraídas pelo sofrimento ou pela infelicidade do outro. No início sorriam, quando alguém tropeçava e caia ao chão. Achavam graça. Mas depois, a coisa complicou-se e vieram as gargalhadas estridentes e as faíscas pelos olhos quando acontecia alguém adoecer, perder alguém querido, ou o emprego, ou a liberdade, ser roubado e violentado ou sofrer algum tipo de consternação particular.
Estudos mais recentes, no entanto, apoiados em técnicas imagiológicas avançadas, relatam a activação dos centros de recompensa cerebrais quando um qualquer habitante de Schadenfreude recebe a notícia de que um seu conterrâneo sofreu algum tipo de mal ou calamidade. A produção de oxitocina também aumenta significativamente, confirmam os mesmos resultados, em particular se o sofrimento alheio for prolongado ou encerrar em si a semente da ruína total. Em casos isolados, observou-se mesmo períodos de excitação sexual extemporânea, episódios de euforia atípica e fanatismo paradoxal em habitantes mais propensos e sentimentais.
O professor Adolf Von Stein, médico psiquiatra e eminente investigador na área, regente da cadeira de Sentimentos e Comportamentos Exorbitantes e Colossais na Universidade Central de Schadenfreude, vai mais longe quando afirma haver toda uma estrutura montada em segredo por alguns cidadãos para levarem a cabo, de uma forma ainda mais eficaz e organizada, a sua insaciável sede de gozo sacrificial.
“O povo de Schadenfreude – esclarece Von Stein – para além de macabro é também excepcionalmente criativo e passional. Sabemos que existem pessoas nesta cidade que são verdadeiros adeptos da tortura galante. Normalmente é gente com grande poder financeiro e prestígio intelectual, que se diverte a montar ciladas, arquitectar finíssimas teias originais, com o fim de conduzir terceiros a fins trágicos e monumentais, tudo isso para gáudio instantâneo e pessoal.
Ainda há bem pouco tempo, pude acompanhar a história de um homem que, após ter tomado conhecimento de que uma mulher da cidade nutria por ele um amor sincero e desinteressado, resolveu iniciar um processo de apropriação selvagem e tirar partido do sentimento desigual. Esse homem investiu uma soma avultada escrevendo, encenando e realizando um conto de fadas exemplar que não demoraria mais do que 12 horas até se autodestruir como as mensagens de alarme ou um sonho sobressaltado. O kit da sua maquinação incluía um jantar romântico, um anel de noivado e uma declaração faustosa e nupcial que culminaria numa noite de amor passada num palácio alugado que, para efeitos hiperbólicos de indução, seria para todos os efeitos o futuro lar dos amantes e da sua prole numerosa e iluminada.
O júbilo desta mulher atingiu durante as horas subsequentes níveis insuspeitos de plenitude e bem-estar, mas, no dia seguinte, apareceu morta, mutilada, à porta de um prostíbulo abandonado, tatuada pela indecência e pelo escárnio, com restos de gargalhadas presos aos cabelos desgrenhados, pousada numa espécie de imaturidade secular.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Jean-Paul Mirage



O meu verdadeiro nome é Jean-Paul Mirage. Tenho 33 anos, sou francês e não pertenço a este século, nem tenho como digna a minha morada. Um erro cósmico, que a ciência conserva no capítulo das doenças sem fundo e a mística não perscruta por pudor ou inaptidão natural, tem-me varrido os dias como um naufrágio. E depois, a vida que me coube, ainda que desafogada de sortes que a outros pareceriam inexpugnáveis, não me permite ser, apenas durar.
Um guião altamente estruturado coloca a voz de alguém nos meus lábios. As palavras, que serpenteiam ao longo do espírito da voz, como uma espinha dorsal, são-me sussurradas. E o real nos meus olhos ferve a 1000º C e sabe-me a aguarrás.
Tenho suportado o corpo e o espírito de Andrés Salvaje durante todos estes anos, com particular complacência e até alguma ingenuidade. Mas nunca o percurso de vida de Andrés me disse nada. A sua vida é uma eterna promessa da qual foram extirpados os órgãos sexuais da esperança e não há nada de muito interessante para fazer dentro de um corpo que não é nosso, senão trabalhar continuamente para o vencer, ainda que saibamos de véspera a nossa insignificância.
Poderia estar horas a contar-vos coisas da minha vida verdadeira, que já aconteceu (e agora é retransmitida aos soluços e aos lapsos), entre 23 Janeiro de 1912 e 14 de Março de 1954, como o comboio que perdemos por um século ou por um instante. Eu vivia em Paris e amava Isabelle Orange. O mundo ainda não tinha acabado. Não demos pela ocupação da cidade, tal era a nossa azáfama. Éramos como feridas contrárias à cicatrização convencional.
Deixei Isabelle e os amigos e Paris e o meu século, apesar de tudo estável, e rendi-me ao desconforto da contemporaneidade, como um gato vadio e faminto que dorme com um esqueleto de peixe atravessado na garganta, no sofá elegante de um matadouro municipal. Como se tivesse de responder constantemente a um anúncio de emprego no caos, fui contratado para proteger e persuadir Andrés Salvaje da sua identidade intacta.
No dia em que Andrés saiba da minha existência, enlouquecerá. É, por isso, melhor que este texto nunca seja publicado.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Contágio Directo



Abro a minha boca diante da tua para favorecer o contágio, mas, sobretudo, para que se cumpra esse gesto de solidariedade radical com o desconhecido. É possível que amanhã de manhã já chegue a febre. Durante a noite os correios e os vírus trabalham melhor e entre andaimes e arrepios já vislumbro daqui uma casa na prostração e uma árvore frondosa, ao lado, cheia de pássaros e chilreios como uma dor de cabeça sublime.
Depois, cairei na cama também. Ao teu lado, rezando para que a coisa se complique. Sonhando que te amo à sombra das pneumonias em flor, à nossa volta a expectoração da Primavera dos vencidos, o ar infestado de secreções e a fadiga de sibilos, a minha mão suada aberta no teu sexo, com o meu dedo médio no melhor da tua vida e o índice de mortalidade altíssimo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O náufrago



O meu grito não surte efeito numa lógica isolada. Estou só, sou um pedaço de medo rodeado de sangue por todos os lados, e vivo num tempo invertebrado, no inferno das convenções: hoje é amanhã, amanhã será ontem e ontem foi nunca mais, mas nem sempre é assim e nem sempre será.
Não é bom, sobretudo para um náufrago, que nos troquem as memórias e as esperanças. As memórias não são apenas o artesanato da idade, mas as proposições precedentes, sem as quais seria absurdo e impensável a existência das imediatas, como as contas na constituição de um colar, os átomos na eficiência da matéria, a unidade na casa da integração. E as esperanças vivem da manhã da novidade, mesmo quando estamos matematicamente condenados, como eu. E se a novidade se repete já não é novidade. É, quando muito, uma representação congelada da novidade, ou um fóssil da novidade sem interesse arqueológico e sem qualquer consequência memoriosa válida na indústria vital.
Porque se, tal como tenho vindo a constatar, hoje é amanhã, então houve um incompreensível lapso entre ontem e hoje. Uma espécie de dia impostor interpôs-se entre ontem e hoje, negando-me o acesso ao tempo (ou à realidade?) em tempo real. E se, por outro lado, amanhã será ontem, então tudo se repete e eu sou produto de uma pálida eternidade sem contraste, prisioneiro de uma falácia ou de uma grave doença temporal, que trará consigo a degenerescência de tudo, inclusive, deste relato.
Mas, pior do que tudo, é saber que ontem foi nunca mais.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O senhor sentado ao fundo



O vinho é uma hipérbole da vida e o senhor sentado ao fundo, com chapéu e fato de asas negro, já bebeu, pelo menos, 3 hipérboles e 2 digestivos. O café está um pouco escuro e confuso, mas reconhecemos-lhe o talento: é o único café que não permite senão clientes que dominem Buenos Aires, essa Paris com personalidade borderline e elegância em ruinas, assim como tudo o que povoava a fé dessa cidade nos exultantes primórdios do século XX.
O excesso ainda não foi condenado neste café. Afixado na porta pude ler: “Abierto el primer café para uso exclusivo de quien todavía viva en el alba del siglo XX”. Mal entrei, assistia-se ao fim de um tango dançado no seu próprio sumo, com dois rivais como protagonistas, feridos pelas navalhas do seu pudor solene.
Por vezes, os tigres de Borges assomavam à jaula da promessa, com um rugido proveniente dos corpos crus dos bailarinos que se friccionavam na madrugada da sua técnica e à flor dos seus papéis. Havia dezenas de clientes entorpecidos pela técnica dos bailarinos e a sensação de sauna no tempo era tremenda, muito fumo, vozes carnívoras, tudo isso aumentava em mim o efeito estrangeiro que eu queria que nunca tivesse existido quando naquela noite entrei naquele café e tudo aconteceu.
Depois de tentar o mais possível disfarçar-me de fantasma e ignorar a lava dos olhos vivos apontados para mim, dirige-me para uma mesa perto da do tal senhor com chapéu e fato de asas negro e pouco depois fiz sinal ao camarero que me trouxesse a minha primeira hipérbole desse dia.
O par de bailarinos deixava o lugar e despedia-se e o ruído do café tornou-se quase obsceno. Algumas pessoas levantaram-se, houve muitas mesas e cadeiras que se arrastaram e toda a gente olhava agora para mim. A música tinha acabado como uma fonte esterilizada pelos velhos costumes da estranheza sem limites e o silêncio aplicado à expectativa misturava-se nos rostos ainda mais entorpecidos do que da primeira vez.
Enquanto esperava pelo meu copo de vinho, reparei que o homem de chapéu e fato de asas negro também tinha descolado os olhos do que escrevia e olhava atentamente para mim. Não sabendo o que fazer, sorri e pedi-lhe fuego, com gentileza.
Doze segundos depois, tudo explodia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Trastornos de la percepción



Guillermo Guel (Barcelona, 1967) sofre de um transtorno raro da percepção: a “Síndrome del espejo disímil”, sendo a “Síndrome do reflexo díspar” a tradução oficial em português. Tudo o que Guillermo Guel capta com os seus sentidos reflecte o real, mas através de uma breve deslocação, seguindo-se como que um pequeno sismo ou clímax, e, consequentemente, uma apropriação parcial e delirante, mais ou menos aleatória e sinistra, do objecto, ou dos objectos sentidos. Por exemplo: uma maçã. Guel reconhece facilmente a maçã como maçã (manzana em espanhol), mas chama-lhe masanez. A língua é das primeiras coisas a ser comovida. Uma dislexia astuta e expedita cala-lhe a manzana convencional e alarma-lhe a intrépida masanez; uma masanez pronunciada como um espanhol comum a pronunciaria, se tivesse mesmo de pronunciar masanez.
E depois é o sabor da maçã. Guel geometriza todos os sabores e dá-lhes ângulos e coordenadas, nem sempre legíveis num plano ou num gráfico simples. Também para ele uma maçã não tem bem o sabor de uma maçã: uma confortável percentagem do sabor real da maçã é inventada por Guel. E as linhas com que se fazem uma maçã foram expostas a uma manobra terrível: ao longe são as linhas de uma maçã; ao perto são abstracções convulsivas. Parecem as mesmas linhas da flor que a criança caótica de Almada Negreiros representou com espanto e talento, quando lhe pediram que desenhasse uma flor. Lembram-se? A criança caótica de Negreiros foi inspirar-se primeiro ao caos e ao cosmos (onde, que se saiba, não há flores) para responder ao pedido.
Lembram-se?, pergunta-nos agora Guel, lembram-se da criança caótica do Almada Negreiros?, pois bem, essa criança sou eu. E continua-nos a contar parte da sua vida, agora em Madrid (Madryd, segundo Guel), onde se diverte a dar conferências sobre os seus desvios perceptivos, aplicados de vez ao verdadeiro entretenimento.