sábado, 31 de março de 2012

Deuss disse



Deuss disse: dei-vos a possibilidade das lágrimas e vós persistis na recomendação do mutismo. Já não falais com chuva nos olhos, já para não falar nas palavras despidas. Nem o vosso olhar agradece o olhar do outro, como na primeira noite, onde tudo aconteceu e houve nuvens e nada ainda existia. A vossa noite atrai agora a idolatria (e só a idolatria), forma o hímen complacente daquilo que deserda o mistério por fé no equívoco e não protege ninguém.
A vossa noite não tem senão um corredor, muito íngreme e comprido, com portas regulares de ambos os lados, quartos com vista para todos os troféus, nenhum tão próximo, porém, da conveniência das janelas partidas. As vossas noites, outrora claras e cabalísticas, usufruem agora apenas do inesquecível como quem desenrola a vida em conserva e sente o cheiro oco da preservação do engenho, o corpo dietético do momento decisivo, o pequeno prazer de não estar vivo e continuar apesar da técnica do adeus. As vossas noites aborrecem-se lentamente na fórmula química do crime, como árvores que dessem frutos prejudiciais para aquele que não prova, mas observa.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cinema assíduo



Uma máquina feroz projecta sobre um descampado algumas das mais belas avenidas, praças e ruas de Paris. Quando as imagens projectadas atingem o alvo apropriam-se do vácuo e da vastidão com a sua douta riqueza de algo, vão ao encontro da nudez desarmada, incorporam milimetricamente o espaço tomado, alastram, como uma mancha perfeita e voraz, e nomeiam as gentes, os propósitos e os lugares da capital.
A vida corre naturalmente nesses extractos de Paris, anos 1920-30, a julgar pelas indumentárias e veículos usados. O trânsito flui com normalidade na Avenue de l´opéra. O sol rompe a frágil fisionomia das nuvens na Place de la Madeleine. Há um furor sintomático de almas e máquinas contornando a Place de la Bastille, sob a indiferença mortal do Génio da Liberdade e do tempo indolor. Mas no cruzamento entre o Boulevard Montmartre e a rua com o mesmo nome vê-se um grupo de pessoas que teima em redor de uma carruagem de eléctrico descarrilada e um homem de chapéu provavelmente inanimado, estendido no chão.
Peço a Charles Dimanche, o homem por detrás do terrível projector, que escolha a perspectiva de um qualquer espectador próximo do acidente e me infiltre essa realidade. Dimanche é-me fiel. Sempre o foi. Um segundo depois estou em Paris. Com bigode, traje da época, vida própria e uma enorme apreensão. De facto, há um homem de chapéu, caído, a sangrar. Ao meu lado, uma confusão de figurantes ardem de pavor e curiosidade. O condutor do eléctrico parece ser aquele homem que se acocorou a um canto, os punhos fechados contra o queixo, o suor caindo-lhe pela testa pálida e os olhos esmagados pelo pudor geral. Na encruzilhada das vozes e dos ruídos da cidade percebo que o socorro está prestes a chegar.
De repente, sinto que o meu francês se apurou e uma mão apertar o meu braço. Viro-me e vejo um homem de olhos muito negros, com um bigode pequeno e educado: “vamos Dupin, assim vamos chegar muito tarde!” Não tive tempo sequer de me manifestar. Juan Desiderium Juan (soube o nome dele mais tarde) levou-me pelo braço, falava um francês consagrado, e não admitia uma explicação. Pelo caminho gritei e tentei libertar-me. Fiz de tudo para chamar a atenção de Dimanche, que do outro lado da realidade – tenho a certeza –, se divertia com a minha maravilhosa intrusão. Nada. Nem Dimanche, nem as autoridades locais e temporais faziam nada. Continuei assim, sacudido por Juan, até às portas do Sacré-Coeur.
Tinha visto durante o percurso, pelo reflexo nos escaparates, que estava obsessivamente bem vestido, como um derradeiro atleta da celebração. Quando cheguei à porta da igreja os convidados amontoavam-se. As reticências começaram a ser iludidas pelos factos. Já não tinha dúvidas. Era o dia do meu casamento. E eu estava muito longe de casa. O homem que me raptava devia de ser o meu padrinho, escolhido com a nobreza com que se escolhem os padrinhos e sem muita paciência para os meus subterfúgios lunáticos. Largou-me à entrada e depois desapareceu. As abóbadas ao som dos lustres dançavam. Pelo corredor central da nave central um arrepio emoldurou-me a convicção e levou-me rapidamente ao altar. A igreja estava cheia de cúmplices e de cânticos. Esperei alguns momentos sem saber que esperava. Quando, por fim, me virei para trás, Christine, vestida de noiva, estava já ao meu lado. A sua beleza transitava para os meus olhos como uma infecção abissal. O padre entrou em cena e deu início à cerimónia. Fiz-me hirto, sincero, impecável. Estava a acorrentar-me devagar. Os anéis foram trocados. No momento de confundirmos os lábios, Christine esfumou-se numa existência vã. E tudo tinha desaparecido da sua tenaz ostentação. A sala voltara a ser escura e solícita, com cadeiras vazias alinhadas na direcção de uma Paris projectada sobre um descampado promissor. As sórdidas gargalhadas de Dimanche, ao fundo, refizeram o mundo depois.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Deboração




Débora leva uma maçã à boca, morde-a lentamente, até obter a harmonia perfeita, o reino que existe algures entre os crimes do sabor e a alegria dos dentes reencontrados na paz, e depois, ainda a mastigar, diz-me que a vida é uma perda preciosa, como certas variedades muito raras de diamantes, descobertos no Espaço por um náufrago incapaz de regressar às suas razões primordiais.
Eu fumo a única forma de inocência plausível na retórica pobre de um cigarro. A minha perspicácia está longe de ser essencial. Não tenho como dizer-lhe que não encontro palavras. O Inverno, lá fora, emoldura-nos o tempo e o alcance. Que alcance? O meu quarto é pequeno e fica facilmente empestado de fumo e interrogações que se aproveitam dos cabelos emaranhados do fumo para resistir ao silêncio que subitamente se instalou nas têmporas da dissolução. Débora está quase deitada na cama, o lençol cobre-a como um vestido improvisado, sem fim nem refutações. Eu estou nu, sentado na orla da cama. Fizemos sexo com muita miséria e aflição, apenas há alguns minutos atrás. Ela não fuma. Rói as unhas, morde maçãs. Está terrivelmente equilibrada. Sabe que as unhas, tal como as maçãs, mais tarde ou mais cedo, cairão. São exemplos de perdas preciosas, amplamente desirmanadas. Ela própria é uma perda preciosa. Os seus olhos denunciam agora a coroação de um ser total banhando-se na banalidade. É meia-noite no meu drama. E eu, sem uma só interjeição, continuo a fumar.
A chuva contra os vidros ajuda-me a formar uma fala. Mas essa fala são muitas e não me sai. Fico preso naquelas “perdas preciosas” de que Débora parece ter a tutela e a explicação. Fico preso nos cabelos desgrenhados do fumo, nas interrogações decapitadas das minhas eternas vacilações e continuo a fumar. A chuva cose no estertor do silêncio as crias infecundas da inverosimilhança. Eu esmago no cinzeiro o cigarro. Débora termina a maçã. O corpo dela procura uma nova protecção: um pai ausente para os seus aforismos bestiais. As roupas estão espalhadas um pouco por todo o lado, mas em poucos segundos ela regride a um estado anterior ao desejo e aparece completamente vestida à minha frente a perguntar-me secamente se a posso acompanhar até à porta, porque sempre está interessada nos mistérios declarados do amanhã. Amanhã? O que é o amanhã? O amor não suporta o amanhã. Amanhã é um filho deficiente de todas estas horas desencontradas. Pouco depois, ouve-se a presença falhar e a porta da rua a bater determinada. A chuva sustém, por alguns momentos, a respiração. O silêncio organiza-se em pequenos núcleos de derrota e milagre. Na rádio, Leonard incendeia a madrugada.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Tristeza apocalíptica




Considerada a última forma de transcendência sobre a Terra, a tristeza era cada vez mais apreciada pelos países ricos. Em 2075, por exemplo, chegavam diariamente a Estocolmo inúmeros biochips, muito fáceis de implantar, carregados de tristeza. O problema era que o preço desses pequenos cursos biónicos de tristeza era também muito variável. Desde o kit de tristeza foleira ao de tristeza sublime, havia uma gradação infinita de tipos de tristeza disponíveis, segundo a mentalidade económica de cada um naquele momento. Nunca é demais recordar que em 2075 a riqueza de cada pessoa era já calculada em dias, não em meses ou anos.
As assimetrias revelaram-se rapidamente cruéis: havia gente momentaneamente muito rica que usurpava do tipo de tristeza sublime e desbaratava-a completamente. E havia o contrário. Gente que só tinha posses para adquirir um certo tipo de tristeza foleira e como organicamente exigia um tipo de tristeza superior ficava a ressacar num mundo de opacidade, riso hiper-real e indiferença.
Não foi preciso muito tempo para que alastrassem os roubos e as falsificações, a copiosa venda de tristeza no mercado-negro, os simulacros quase perfeitos. A cópia podia superar e até corrigir o original, mas nunca era um clone completo. O reflexo autêntico perdia-se no ADN estrangeiro e aquela que já tinha sido um dia a tristeza de alguém (ou definitivamente para alguém) jamais se adaptaria a 100% numa realidade genética paralela.
Foram relatados muitos casos de depressão desmedida, tristeza tirânica, apagamento iminente. Cada país cedeu gentilmente uma parte proporcional do seu território para criar campos de concentração para os sobreviventes. Uma vez isolados, estes mantinham com o resto da sociedade uma veloz impressão homogénea. Uma portentosa simulação do real operava muito perto, com centenas de actores e funcionários contratados que lutavam diariamente pela verosimilhança das conveniências e rotinas. Claro que havia alguns inquietos que eram policiados de muito perto pelo zelo extremo das medidas. Especialmente para esses foram criados mais chips com soluções de amnésia ou potentes engodos pacifistas, até que um dos inquietos resolveu nascer resistente e permanecer. E contou a já não sei quem o porquê do brilho sinistro das suas vidas.
A consciencialização ganhou tanta fama como um vírus. Ao saber-me perdido, reuni longas horas com os meus melhores engenheiros e pedi que me desenhassem um novo chip, um chip que me faria experimentar interminavelmente a sensação do suicídio, alterando-me o código genético, para assim poder escapar à total deposição sem qualquer arroubo de fuga, retractação ou arrependimento. Mas, pela primeira vez, senti o sabor do chip alheio, o cheiro da tecnologia previamente investida, o hálito da traição insurgente, e agora sou eu quem está do lado de lá da tristeza a contar tudo isto, sem lágrimas, para ninguém.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O estranho caso de Diamanda Déspota



Diamanda Déspota tem 10 anos e é uma criança erudita. A super-erudição infantil é um tipo muito raro de sobredotação que exclui quaisquer propósitos vigentes no equilíbrio. A intolerância ao mundo enfatuado dos adultos é um dos sintomas mais salientes. A essa intolerância severa o cérebro organiza uma série de démarches para que o doente continue a viver apesar de todos os pressupostos terrestres absolutistas. No caso de Diamanda, é muito notória a inversão apocalíptica. Virar o mundo ao contrário é uma das respostas possíveis num universo onde o que é sentido como essencial não atende. Diamanda atira uma maçã ao ar e ela recusa-se a cair. “Para compensar, a lua aproxima-se da Terra a uma velocidade relativamente aflitiva”, diz ela, com um sorriso congelado e escorregadio, os lábios pintados de vermelho vivo, a cauda da inocência a arder.
No seu contra-mundo, as pombas revoluteiam como moscas à volta de lâmpadas acesas, que iluminam quartos minúsculos, onde só cabe a inconveniência cega e dois ou três desejos sem perfil. É normal, por exemplo, encontrar crianças destas a brincar com as suas novas mutações e incongruências, que a sua aprendizagem supérflua promove e exime, como se fossem brinquedos trágicos e fiéis. “Os adultos, diz Diamanda, têm o estranho hábito de baterem com a cabeça contra as paredes, e ainda por cima, com uma força francamente superior àquela que tinham inicialmente previsto.”

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Kelda Ky



Tenho uma tendência para me apaixonar por mulheres inacessíveis de nascença e infinitamente desencontradas. Por exemplo: Kelda Ky.
Kelda vive em 2334. É natural dos Estados Oníricos da América e estrangeira em toda a parte. Tem uma profissão que nem ela própria sabe muito bem decifrar. Comunicamos há já muito tempo através da rede intertemporal. Os seus hábitos parecem-me sempre corruptos quando os contemplo à luz do meu século cheio de desgraças e vaidade. Ela, pelo contrário, tem piedade do meu tempo e das minhas circunstâncias, chegando mesmo a render-se ao riso e à informalidade quando lhe falo das nossas concepções e obstáculos gerais.
Quando lhe peço que me subtraia do futuro toda essa dimensão amorfa e desonesta de escuridão falsificada, ela entorna a conversa, desconecta-se da verdade, ou então pura e simplesmente recusa-se a prestar qualquer esclarecimento, alegando com isso poder sacrificar irremediavelmente os delicados circuitos temporais, favorecer a inconsequência e ilustrar a descontinuidade.
Apesar de tudo, ela vai-me contando como é a vida muito depois de amanhã. Kelda não tem um só corpo. Ela veste pelo menos um corpo por dia, como nós peças de roupa vulgares. Em 2334, a meteorologia perdeu a noção das conveniências e o clima muda de minuto a minuto, desenrolando as piores ansiedades e catástrofes. O planeta, tal como o conhecemos, não existe: “O espaço concreto desapareceu. Vivemos todos mergulhados num oceano de nada, em perpétuas penínsulas de mudança”.
Por vezes é muito difícil seguir os seus raciocínios, elaborar contra eles uma espada verbal. Kelda pede-me mil desculpas e experimenta reformular: “A morte quis anexar-nos.”
Eu sinto uma bela incompreensão por tudo o que ela diz, por tudo o que ela sabe, por tudo aquilo de que ela é capaz e incapaz. A submissão de que é feito o amor no meu tempo não me permite senão incompreendê-la e amá-la ainda mais. A sua inacessibilidade chega-me por vagas, arrepios e sintagmas adverbiais, normalmente muito tarde para que possa pôr um ponto final nesta relação e exigir de Kelda uma correspondência verdadeiramente presencial, uma responsabilidade incorporada, já lhe confessei que quero as vísceras do seu eco no meu âmbito, o carimbo no passaporte para a viagem à abdicação, mas Kelda ignora as cócegas da minha vontade e volta a entornar a conversa, a desconectar-se da verdade, a falar dos Estados Oníricos da América, do seu século e do imperialismo sórdido do tempo que nunca virá.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A filha da lavadeira



A filha da lavadeira de Álvaro de Campos nunca foi feliz. Casou, já tardiamente, com um proprietário rural, não fez mais do que lavar, também ela, as fadigas alheias da vida, castigando as nódoas cada vez com menos coragem e detergente e perdeu a oportunidade de casar com alguém que um dia a mencionara tristemente num poema e erguera uma conjectura tão influente e decisiva que lhe havia roubado para sempre o sol e o sorriso.
Alguma insubordinação espontânea de carácter e maus humores intra-uterinos fizeram com que parisse apenas 4 filhos, dois dos quais morreriam à nascença atacados por uma estirpe muito rara de F.V.E. (Falta de Vontade de Existir). Carolina e Ezequiel, os sobreviventes, viveram apenas e respectivamente 28 e 33 anos. A primeira porque se debruçou demasiado das margens das dificuldades, depois de ter contemplado o seu rosto reflectido nas águas de um destino vazio. O segundo, durante a guerra inverosímil que travava diariamente dentro da sua embotada consciência.
Lídia Carolina Gentil, a lavadeira, e Diamantino Jorge Ezequiel, o marido, foram um casal exemplarmente ineficaz e infeliz. As agressões motivadas pelo mau vinho de Diamantino consolidavam um amor paupérrimo, com notas de humilhação consentida, restos de lama nas esperanças autênticas e óbvias divergências no seu melhor traje de domingo.
Um dia, ao fim de mais uma jornada, ao desabafar com uma amiga, quando o vértice do tempo tocava os seus 74 anos e 145 dias, Lídia manifestou a vontade de voltar a Lisboa, porque lhe faltava o cheiro do tabaco suado e a voz de um misterioso homem imiscuído. Três dias depois, as páginas mais negras dos jornais revelavam a sua fotografia.