quarta-feira, 14 de abril de 2010

A desilusão foi a minha Beatriz





Restos de expectativa acesa na estatística
moderna tornaram-me num desiludido.
Afinal a minha face ficou perfeitamente disforme
depois do acidente que tive com a poesia.
Na rua toda a gente me conhece
pela minha identidade secreta
mas todos se dirigem a mim com arrepios.
As pessoas fogem da sua desilusão a sete pés
e não têm mãos a medir os quilómetros percorridos
descalços sobre a sua sombra a ferver
na velocidade tácita do seu curto papel cumprido.

Mas quando se trata da desilusão alheia
e da sua feroz capacidade para projectar
uma desnecessária posteridade
de imagens desiludidas
quando o outro se torna numa máquina
de desilusão apenas por aparentar estar
ou ser desiludido
então ainda mais fogem ou fingem fugir
patrocinadas talvez por um qualquer compromisso
urgente, cólica ou mera deselegância formal
já muito próxima contudo das bases do canibalismo.

Quando me encontram, as pessoas são normalmente
muito simpáticas e fingem aceitar
a minha habitação desiludida
em troca de uma noite
a ouvi-las falar dos efeitos
secundários da dissimulação.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Depoimento



I

Há uma caixa negra dentro
da finalidade do mundo
como uma manhã fictícia
que só um grande acontecimento
consente.

Há uma face humilhada
pela presença súbita da chuva
no argumento do meu medo
a única fala que tenho de saber
de cor até ao dia da estreia
do teu convite.

Há um presságio agitado e concreto
entre o teu desaparecimento e o meu
vício de o exibir.

Há uma comunidade inconfessável
que habita a órbita do esquecimento
do mundo nessa parte do mundo
inconfessável por natureza
que é o esquecimento de si.

II

Pouca gente se apercebe
de que há um plano ultra-secreto
para destruir a sociedade
com assédio e um certo tipo
de flores desfavoráveis
aos cardíacos:
as carícias.

Os amantes vivem melhor mergulhados
no verbo matar de forma ridícula
e são vizinhos de um destino caído
em desuso pela probidade da terra.

Não tenho pena nenhuma destes tristes
que se enforcam com o seu próprio êxito.

Não temo sofrer da mesma notícia
nem sequer vir a ter o mesmo domicílio
de certezas doentes.

Sei perfeitamente
que o mundo não é aquilo que aparenta
ao espelho do seu tempo
nem nas suas mais antigas superstições
há relatos de um abraço tão severo
como foi aquele que nunca demos
por falta de braços na exactidão.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Aquilo que vestem os que estão nus




Posso ser negligente com a minha nudez
atribuir-lhe a noite de todas as culpas:
ela continuará nua dramaticamente nua e imune
insensível aos impostos dos meus passos
minúsculos para a deter.

A minha nudez é um pleonasmo infiel a si mesmo
e navega à velocidade de um corpo por segundo
isto se o espelho tiver uma óptima resolução
e a cópia libertar o original das inconveniências
de ter nascido primeiro e mais pobrezinho.

Um murmúrio inalterável de areia quase convicta
eis a minha nudez.
Praia impressionável à palpação.
Lei ao abrigo do desabrigo.

Mas ninguém imagina o quanto eu desrespeito
a minha mortalidade quando estou nu
sem os utensílios e os sentidos encobertos
pela famosa roupa de marca do tempo.

Chego até a acreditar no uivo e no perjúrio.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Normas de funcionamento de um hospital




1. Num hospital para amantes, os doentes nunca estão acamados - nem há camas sequer que lhes sirva - porque é precisamente do hábito da cama que eles se querem ver livres. E inocentes. Para sempre.

2. A austera e preferível posição vertical favorece a morte da morte que se diz reduzida, mas que os domina, assim como inicia o fim dos festejos das larvas da libido e sugere o voto em branco hormonal.

3. Não há qualquer espécie de internamento, senão das fantasias, umas convocadas ao coma, outras sujeitas à combustão.

4. Está inteiramente proibido o uso e o consumo de corpos correlativos e mesmo a amizade e a afeição são vigiadas continuamente da eficácia.

5. O hospital possui pelo menos um médico por cada amante.
E todos os benefícios da floresta pragmática de um paraíso norte-europeu:

6. Animadores pobres de serão. Génios a quem o amor causou claudicância e varizes. Gente que auxilia na cura contra aquilo que sente, mas que recebe uma enorme quantia por isso. Personagens primordiais. E enfermeiros especializados na ferida áfona que Derrida - um dos doentes externados aqui – julgava saber de ti de cor, logo quando a noite se suicida.

7. A abstinência sexual é ensinada aos gritos, através de altifalantes minuciosamente instalados nos corredores da má-fé.

8. As propriedades esfuziantes da nudez são extraídas por intermédio de drogas que prejudicam seriamente a representação do outro em toda a sua coerência erótica e simetria.

9. Todos os utentes têm de ter sempre o corpo coberto de analgesia e desaparição.

domingo, 4 de abril de 2010

Quarenta graus à sombra (com Platão e ideias irrealistas)




Quarenta graus à sombra
e a necessária precipitação dos olhares
que se cruzam depois da meia-noite
nos corredores mal iluminados de uma escola
de nudez absoluta relativamente àquele
que se despe sem querer perante a coisa
que quer ver despida.

O asfalto onde decorre este momento
derrete com o calor e liberta estratégias
de fumo e fuga que se frustram na inércia
que aguardam a água cega do momento
seguinte numa aerodinâmica sala de espera
onde aparecem os dois pela primeira vez
vestidos de convidados para o seu próprio labirinto.

E quando a audácia começar a dar dinheiro
contrata um arquitecto que projecte uma ponte
entre tudo em aberto e nada em rigor.
Pode ser que o amor dure para sempre
por alguns segundos
suspeitos de conterem lá dentro
várias vidas depois.

Lê sempre o prazo da eternidade que te oferecem
mais do que uma vez, e em todas as línguas.
E nunca te preocupes com a forma nem com o trajecto:
atravessa. Apenas e apesar de tudo atravessa.
Afinal a mesma coisa ocorre ao prisioneiro
no dia em que lhe anunciam o dia
envelhecido da sua liberdade perpétua
as grades que o espreitam no mundo das ideias
mais irrealistas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Trânsito cortado na rua da inspiração




Soube hoje que a inspiração é uma mulher, de 33 anos,
sem os documentos em dia, uma cidadã estrangeira
e intempestiva num país pouco adoptivo como o meu
de origem, um enclave entre a poesia e a cegueira
uma princesa das que vivem apenas das revistas
uma actriz secundária numa colónia de cépticos.

Soube hoje que a inspiração é uma fada
com HIV positivo e com o fato de trabalho
coberto de manchas de corrector
e úlceras de pressão.

Antes que o locutor passasse à próxima notícia,
soube isto ainda:
que a cidade deprime estas dependências
fictícias, rebaixa-as até ficarem afónicas
e pedestres.

E depois, fá-las acreditar em desacreditar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A história da Branca de Névoa (Snow Not So White)




A noite não tarda a rever-se no livro
das suas eternas reclamações.
Uma mulher muito famosa confunde-se
misteriosamente contigo nos corredores
do interdito.
As previsões falharam quando disseram
que hoje nevaria pedaços da tua pele.
Apenas uma névoa investiu na cidade
com a cultura do teu último suspiro.

Agora, toda a tua perseverança
pode ser vista por todos nós
até porque decidiste morrer
com os seios ainda habitados
nas mãos invisíveis do príncipe.

Por vezes a vida é madrasta
e a morte dorme com os pulsos
cortados pela ironia:

na mesma sala onde a tua exposição
ao tempo decorria sem grandes surpresas
enquanto eu desejava morrer também,
totalmente nu e sonolento dentro da urna
contigo, um homem muito baixinho, ao meu lado,
imaginava que sabor teria aquela maçã
envenenada que flutuava fora da tradição
paradisíaca.