sábado, 24 de dezembro de 2011

A arca (supostamente) de Noé



O mundo está a mudar, e muito depressa. Na ausência de eficácia e convergência dos protestos provenientes da espécie dita esclarecida, os animais têm vindo a utilizar aquilo que têm mais à mão (passo o óbvio animismo), para sacudirem a ordem do dia e o establishment do último reduto de um antropocentrismo que ainda chora de noite quando acorda, está tudo escuro e não vê nem a mãe nem o pai por perto.
Alguns historiadores, zoólogos e defensores de um Novo Criacionismo de pendor New Wave acreditam que os animais se reuniram muitas vezes em surdina enquanto o homem vigiava a sua frincha da inocência, tomada tantas vezes pela síndrome da insolência adquirida.
Muitos acreditam ainda que os animais estabeleceram planos que combateram a estratégia paraplégica de uma espécie que reinava com a convicção de que era sublime (e apenas sublime!), e de que, por isso (ou nem por isso), lhe era conveniente existir acima e ligeiramente abaixo de todos os séculos, expectativas e erros, conforme a disposição daquele dia.
O que é certo é que, pouco tempo depois, os animais assinaram um ultimato que confirmava estar para breve o fim dos tempos e de um certo tipo de sabedoria. Colocaram entre aspas “sabedoria” e “certo tipo”, mas não "breve" nem “o fim dos tempos”. Propuseram novos slogans, verdades, diálogos, mentiras e escatologias. Deseducaram-se progressivamente como uma pétala que foge à flor, por uma questão de milímetros. E tornaram-se reis, depois de violarem a única mulher a bordo da arca e assarem na brasa a infinita bondade de Noé, que, dizia-se, tinha um lombo perfeito, e teria sido melhor ainda se o molho ficasse a repousar de véspera e as batatas reluzissem.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ósculomancia



Há quem diga que é possível prever o futuro num beijo. Que durante um beijo há uma troca extrema, que não sendo de forma alguma imperceptível, está contudo desfocada, codificada, como se algumas das imagens que um beijo liberta não tivessem leitura possível, ou estivessem representadas numa língua estrangeira, terrivelmente estrangeira, talvez mesmo alienígena. E há quem diga ainda que essa mensagem negra vem carregada de futuro e de certezas. De coisas que acontecerão e que por isso já acontecem, com o rigor cósmico de um círculo perfeito, a fidelidade extrema da auto-realização profética consentida, as raízes profundas da crença na vida enquanto inalienável reflexo sobre reflexo sobre reflexo. De coisas que já existem sem todavia existirem, como se o destino fosse uma invenção prévia a qualquer outra, um labirinto para o qual não houvesse senão um conjunto escasso de possibilidades de o percorrer, única entrada, única saída, nenhum minotauro superior à sua linear consciência geométrica, nem um Teseu, sem sinal de GPS, Ariadne incluída.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O vampiro sublimado



Nunca durmo de luz apagada. A escuridão total envenena-me. Acordo naturalmente com o aplauso do sol nos dias mais nítidos. Ou então, com a luminosidade triste que a chuva costuma injectar entre os vidros da janela e a virtude da persiana partida. Acordo com a cura do dia, digamos assim, entregue à normalidade e à reconciliação. Depois, desligo a luz do candeeiro e faço as minhas rotinas.
Mas esta noite faltou a luz. Já tinha acontecido ter faltado a luz durante a noite, enquanto eu estava a dormir, mas a Lua estava de bom humor e eu talvez tivesse mais clorofila. Lembro-me que acordei, olhei para o relógio e fui às apalpadelas até à varanda, completamente nu, para receber a única fonte de luz disponível e esperar pelo confortante romper do dia.
Mas esta noite, quando faltou a luz, a lua tinha migrado para outra galáxia. Valeu-me o jogo estúpido de uma caixa de fósforos no fim, operação vagamente contrariada pela humidade e pelos meus gestos entorpecidos, depois a chama do fogão a gás, na ausência de velas na casa, e, desidratado de luz, esperar pelo imenso dia seguinte.
Tenho a certeza que haverá uma outra noite em que a luz irá faltar. A Lua terá migrado novamente para outra galáxia. E nem sequer um único fósforo encharcado para conter momentaneamente a esperança eu irei ter para acender o fogão a gás, contemplar de perto a sua chama e, desidratado de luz, esperar a primeira ração de energia. "Nessa noite", diz o meu médico, "experimente desvincular um espelho da fronteira que o protege dos países bárbaros da realidade irreflectida, depois encha a banheira, ponha a flutuar o espelho à tona da água e salte para ele de uma altura considerável, vai ver que a luz, mais cedo ou mais tarde, aparece".

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O homem grávido



Irene e Pedro Perez esperam um telefonema: ela, o da médica com o resultado dos exames que fez; ele, o do editor com a resposta relativa à proposta de publicação do seu último livro. É domingo, são seis da tarde, lá fora chove, na televisão um casal beija-se, como se beijava na América nos anos 1940-50, com tenacidade oblíqua.
O telefone toca. Ouve-se o barulho das supra-renais a cuspirem adrenalina e noradrenalina. Irene levanta-se primeiro e corre para atender. Durante os 2 ou 3 segundos que a separam de atender a chamada, Pedro levantou-se também, mas permaneceu no mesmo sítio. Os golpes da água contra o vidro impediram-no de ouvir na perfeição o júbilo de Irene. Mas, para quê os pormenores?, pensava ele, se já sentia as sirenes diabólicas da alegria a soarem pela casa numa espécie de missa negra, a respiração ofegante da mulher, frases entrecortadas pela informalidade descosida e depois o silêncio abissal que se interpôs entre o fim da chamada e aquele vento que sopra de dentro para fora da pele.
A chamada durou precisamente 2 minutos e 27 segundos. Irene regressou à sala e lançou-se para os braços de Pedro. Os braços moles como tentáculos filiais ao pescoço dele, o rosto dela era um satélite natural de ternura e gelatina que sorria. Depois, pôs-se aos pulos e aos gritos e precipitou-se novamente para o telefone para contar a notícia aos pais.
Os pais espumaram de contentamento quando souberam que Melisa já fazia parte dos vivos e mais do que tudo: que era uma menina Perez. Nessa mesma noite, Irene e Pedro entraram pela sala de jantar da casa dos pais dela (era Inverno em Madrid, e em toda a parte, parece-me) e antes que se sentassem à mesa, antes mesmo de despirem os casacos e o frio, ela gritou a notícia: VAMOS TER UM FILHO. Ouviu-se a explosão do champanhe como nas melhores comemorações rituais. Depois, Irene, como mãe e filha única que era, foi levada em braços para uma venerável dimensão do delírio, onde ficou prisioneira de derrames de lágrimas, beijos e abraços como sanguessugas que deixassem as suas ventosas no afã da descoberta. E Pedro, num canto da sala, a fingir que enviava uma mensagem para ninguém, teve mais uma vez de suportar o êxito miserável dos sogros, dos velhos, como costumava dizer, a sua honestidade emocionada e centrípeta, a sua triste alegria de domingo na cidade sem lei.
Dois dias mais tarde, Pedro recebe finalmente um telefonema da editora. Recusaram o seu original por supostamente apresentar malformações congénitas, e, entre rodeios e falsos incentivos, aconselharam-no a tentar o silêncio.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Casas mesquinhas



Há mais de três dias que Mauro Rubinstein não sai do quarto. Tudo começou com a leitura de um texto sobre a existência de “casas mesquinhas”, que Julio Ramón Ribeyro incluiu nas suas “Prosas Apátridas”. Nesse texto, Rybeiro sugere que certas casas não proporcionam o conforto intuitivo que todos necessitamos, mas, muito pelo contrário, acentuam a sua hostilidade funcional e exasperam uma espécie de luto prévio consignado a quem nelas se demorar e ousar estabelecer um qualquer pacto de paz ou vínculo de intimidade. Depois de ler e reler o texto de Rybeiro, como um manual de iniciação ao descalabro, um micro-cataclismo, desencadeado pela mais desabrida mistificação, irrompeu numa sala escura do reino de Rubinstein, situada algures num enclave do seu cérebro extremamente maleável à superstição.
Algumas horas depois, imobilizado ainda pela noite escura da cogitação e dos estragos, Rubinstein começa a recordar outros exemplos de casas mesquinhas na literatura mundial. Alguns anos antes de Rybeiro, Cortázar tinha já escrito aquele que foi considerado por muitos o primeiro conto publicado do autor de Rayuela: Casa Tomada. Este conto é talvez aquele em que o argentino mais parisiense de sempre melhor soube investir na questão fantasmática e injectar-lhe as sementes da paranóia, construindo mesmo um caso clínico complexo de folie-a-deux, tal como vem descrita nos mais modernos compêndios de psiquiatria.
No texto de Cortázar, dois irmãos, que parecem perfazer o reflexo perdido de outro par de irmãos famoso, Elisabeth e Paul, as crianças terríveis da novela homónima de Cocteau (e que Rubinstein irá resgatar mais tarde), herdam uma casa tão mesquinha, que até está apetrechada com um misterioso mecanismo de manifestar o seu desagrado e incitar a expulsão. O leitor desconhece que forças são essas que aquela casa tem. Não há a mínima indicação de que se trate de uma imposição extraterrestre, da presença de fantasmas de antigos inquilinos, de personificação paródica e abusiva da casa enquanto personagem ou ente, de qualquer outra estratégia de diluição fantasista ou lunática. Há, isso sim, uma tensão paralisante que nos é contagiada pelos protagonistas, até por fim a expulsão completa dos dois vencer os seus e os nossos medos mais graves, para segundos depois voltarmos a suar e a tremer, desta vez de afinidade psicótica, mórbida identificação e vácuo.
Persistindo avidamente pelos caminhos trilhados pela afinidade, a identificação e o vácuo, hoje de manhã Mauro Rubinstein deu por si a revisitar o quarto do homem que dorme no romance de Perec, como mais um paradigma de uma “casa mesquinha”, e pela primeira vez teve a sensação de que nem todos os instrumentos de expulsão de uma casa são iguais. Há casas que nos expulsam para dentro delas, fechando-nos numa repartição abandonada, fazendo-nos reféns mais ou menos voluntários da sua desonestidade crucial. E suspeitando que talvez houvesse uma espécie de festa clandestina no resto da casa sem o seu consentimento ou participação, Rubinstein levantou-se da cama, calçou os chinelos, dirigiu-se à porta fechada do quarto e quando a abriu verificou que o resto da casa tinha sido expulsado pela sua própria expulsão.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Pierre e Anne Villeneuve



Motivado pela brusca e impiedosa implosão do seu casamento com Anne, que já durava há mais de 6 anos, Pierre toma duas tabletes inteiras de Diazepam e enquanto espera o eclipse total imagina que viaja numa nave a uma velocidade próxima da velocidade da luz e que se ausenta da Terra pelo menos durante um ano, contado pelo seu velho relógio digital. De regresso, descobre o planeta centenas de anos mais tarde. Antes mesmo de procurar ficar ao corrente das mais recentes condições de vida na Terra (e em particular no seu país e na sua cidade), das notas dominantes do progresso tecnológico e humano e tentar encontrar um lugar onde atenuar o impacto com a nova realidade, dirige-se ao Cimetière du Nord, Rennes, França. Apesar dos inúmeros transtornos tecnológicos, das aberrações urbanísticas e infra-estruturais que grassaram um pouco por toda a cidade, o cemitério conservava ainda a sua identidade oitocentista e provinciana, intacta a entrada monumental, os caminhos e as ruínas circulares. Não foi, por isso, muito difícil descobrir, ao fundo da Section I, o pequeno túmulo de Anne.
A simples perspectiva de ter participado num homicídio notável e descatalogado, por falta de provas que condenassem um homem, que apenas se ausentou da cidade, do país, do planeta durante pouco mais de um ano, da morte da sua amada, causou-lhe uma violenta e generalizada crise de riso incontrolável, seguindo-se quase imediatamente um emudecimento biológico total.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Paulo e Virgínia



O meu dia-a-dia é uma cadeira de Maldição Comparada, queixava-se Paulo, sentado na relva do parque, a Virgínia, que estava atenta à brincadeira mórbida entre duas crianças fatais. Mal acordo, a dissonância da vida ata-me os pés e as mãos – continuou Paulo – e a artrose da vontade não me deixa em paz. Demoro mais de duas horas a tentar desenvencilhar-me das teias de aranha do sono e só depois me levanto, aqueço rapidamente as articulações dos joelhos e vou aos saltos para a banheira tentar lavar-me por partes. Fico mais de três horas para ensaboar os genitais e outras tantas para os enxaguar. Se acrescentarmos as quatro horas e meia necessárias para produzir o resto da toilette, resta-me menos de 15 minutos para sair de casa antes que a noite venha aprisionar-me ainda mais.
Virgínia abria e fechava a boca com espanto. As crianças, ao longe, brincavam com espadas de verdade. Ao longo da narrativa desesperada de Paulo, Virgínia tinha assistido pelo menos a 6 ou 7 mutilações graves, uma das quais fora tão profunda e suficiente para decepar uma mão. Estás a ouvir? – protestou Paulo, fazendo círculos com os pés atados, pequenas devastações no relvado entre cascas de banana, o pacote de vinho entornado e o saco vazio do pão. Virgínia não respondeu. Levantou-se, deu alguns passos em direcção ao lago, apanhou um ramo de flores que jazia junto da sua última oportunidade. Depois, e sem nunca se virar para trás, entrou no lago. À medida que avançava ia perdendo os pés, as pernas, as mãos, a cintura, o tronco, os braços, o pescoço e finalmente a cabeça que também desapareceu, deixando no entanto a cabeleira negra à tona da água que o fogo relapso do ocaso viria a incendiar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A minha equação triste



Se me perguntassem o que gosto mais em mim, eu responderia, sem hesitar, mas a tremer: o acesso privilegiado à minha equação triste. Seria perfeitamente natural que o meu interlocutor quisesse desfiar o enigma e dissesse, logo a seguir, explique, comente, faça essa bela frase explodir num musculado argumento e encha-me o cérebro de imprudentes imprevistos, lábios, vértices, fogueiras. Também seria perfeitamente natural que eu me negasse a dar-lhe mais explicações, comentários e provas das minhas metáforas felizmente indefiníveis. Seria tudo normal, se eu não estivesse em directo para o maior canal de televisão do Estado, com milhões de cérebros dependentes da acção e reacção do meu cérebro, com o tempo a esmagar-me o máximo período refractário consentido entre a pergunta do jornalista e a minha esperada resposta resplandecente, com as luzes das câmaras a queimarem-me o último suspiro, o microfone quase a beijar-me a traqueia, o insuportável ruído dos insectos citadinos.
Ouça – comecei por dizer –, cada um de nós é uma equação triste. Já não temos mais reservas para ninguém, porque em nós, em todos nós, morreu o pai da aldeia e surgiu o vampiro. Todos nós somos uma equação, uma fórmula de igualdade sinistra e uma identidade vizinha. Basta olharmos para a nossa condição, para nos apercebermos como ela é triste. Ora, eu amo o acesso, a passagem secreta de mim para mim. Essa escada de caracol que só eu ouso subir, descer e perspectivar sem erro, ou com o erro mais perdoável do universo. Todos nós temos um acesso privilegiado à nossa Terra Gémea, ao selvagem intuitivo, àquele que não sabe como reconhecer a sua originalidade retrospectiva, e rebela-se. Subir ou descer à nossa condição, mergulhar no pequeno êxtase do que temos a mais e a menos não é uma armadilha. Pelo contrário, ajuda a melhorar a espera, percebe? É como a conversão do peso em pétalas na arte do faquir.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Marga Ethiija



Marga não morre facilmente. Se bem que à primeira vista pareça suplantar a sua irmã gémea, toda virada para a descontracção e sem o mínimo vestígio de opacidade relativa, tem, digamos, pouca flexibilidade no trato com desconhecidos, é como se pressentisse sempre a notificação do pai ausente quando um homem a aborda e se inclina. É como se nunca fosse o tempo certo para Marga, ou houvesse dentro si a previsão constante de aguaceiros que cancelassem, por si só, a ideação louca do piquenique.
Marga é a típica mulher-todavia. Sofre, escorregando pela espinha dorsal do destino, com a face ficcionalizada pela melhor aparência, é certo, mas os ossos do crânio e do rosto estão já descalcificados, e se nos conseguirmos deter violentamente no branco dos seus olhos, vamos compreender de uma vez por todas o enigma do seu inferno exíguo: toda ela está virada para o desconcerto que uma mente estrita e faminta não prescinde, mas ao qual nunca se entrega, sob pena de exasperar a sua índole e liquidar o negócio da sua estreita perfeição, aqui e no céu. Toda ela é um pedaço despedaçado de uma realidade que não vem. Ou que vem, mediocremente, de não vir. Toda ela é planta decorativa na melhor empresa que sonha herdar do futuro marido, nas imediações mortas do testamento. Toda ela é narração fantasma, pouco nutritiva. A perspicácia da beleza atirada ao canibalismo do não-ser. A falta de acontecimentos num corpo sem finalidade precisa. O dia tóxico do adeus.

sábado, 5 de novembro de 2011

Rita Riulk 3.0 Galaxy



Rita Riulk 3.0 Galaxy é um protótipo pós-humano, do sexo feminino, com a idade permanente de 27 anos e 173 dias. Neste momento, Rita está escondida com William Trash, o seu pai cibernético e totalitário, a mais de 300 metros de profundidade. Trash desenhou um palácio de galerias infinitas debaixo do deserto de Vaanh e contratou uma vasta equipa de súbditos, entre os quais está o Conselho dos Ávidos, violentos intelectuais e publicitários que configuram o núcleo duro do sistema Trash, sem outra pretensão, no entanto, que a de conquistar uma alternativa à inércia do real.
Ali, a mais de 300 metros de profundidade, quando os engenheiros deram por terminado o trabalho, William Trash autoproclamou-se rei daquele estranho microestado mental, constituiu uma empresa, pôde suportar as despesas para a licença, as escavações, ideou a arquitectura escrupulosamente minóica do palácio e deu emprego a 194 pessoas que antes se desperdiçavam entre a desocupação e a embriaguez geracional.
Ali, a mais de 300 metros de profundidade, William Trash conheceu Rita Riulk, responsável pelos recursos humanos da sua micro-nação. Envolveram-se num episódio tão severo de paixão e impunidade, que a certa altura Trash teve mesmo de a matar.
Ali, a mais de 300 metros de profundidade, Trash ressuscitou Rita Riulk, depois de passar 59 horas consecutivas fechado com o cadáver no seu sofisticado laboratório real. Dali saiu, já com outra vida, Rita Riulk 3.0 Galaxy. Uma mulher sentada para sempre nos seus extraordinários 27 anos, remasterizada pela música da sua segunda e mais veloz oportunidade vital, programada para acatar a sua condição.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Wienlaand, o ácrata



Wienlaand entra em casa. Acende a luz e diminui a escala do mundo para ter a sensação de o alcançar. Descalça-se para sentir melhor a pertença e a pele da pertença que, ainda assim, é pertença em negação. A pertença transmite-se pelo contacto contínuo e nu dos seus pés com o chão, tocar a Terra em directo, diz ele, ainda que viva num 13º andar, como os homens tocaram a Lua, em directo, ainda que através dos fatos de astronauta e às custas da gravidade extenuada, talvez tenha sido, e precisamente por isso, um toque mais educado, um toque com aquele tipo de educação que a sensualidade, que é interesse ornamental, sabe transportar.
Wienlaand já não é novo. Cresceu-lhe um pesado lombo de peixe da cintura para baixo e arrastar as barbatanas pelo chão já não o comove tanto como quando pesava 70 kg e era ele quem desenhava a sua fala e os seus actos, e não um guionista qualquer ou um inútil engenheiro da vida dita vulgar. Além disso, a ligeireza dos dias ofende o fantasma permanente do seu tacto. Era uma vez a motricidade fina e a subtileza sussurrada. Era uma vez a capacidade para se reter todo dentro de si e esperar ansiosamente pelo fim-de-semana para se livrar do Dr. Jackyll e revelar o Mr. Hyde. Agora, pelo contrário, é Mr. Jackyll e Dr. Hyde, e todos os dias da semana. Um cocktail de nações rivais servidas como aperitivo para o descalabro.
Wienlaand, ainda assim, despe a gabardina, cospe o gabarito e o garbo, para se certificar que a nudez, pelo menos aquela nudez, o aplaude na perfeição. Tresanda a whisky e horas desperdiçadas para ganhar dinheiro que lhe permita desperdiçar outras tantas. Os músculos estão frustrados e o corpo todo exige-lhe o centro da Terra, máxima gravidade que contraria com um repentino salto do invólucro para a vida verdadeira e inactual: Wienlaand atravessa cambaleante o corredor como um atleta de movimentos desirmanados e dirige-se ao quarto, à varanda do seu 13º andar. Quer rescindir completamente o contrato que o mantém vivo todos os dias naquelas horas anteriores à sua aparição extraordinária. Quer lavar todas as suas antinomias com a água gelada do impacto com o chão, o outro chão. Quer matar-se pela metade. Atirar metade do seu corpo pela varanda, apagar o seu falso realce, as marcas da empresa onde trabalha, o comité dos simulacros internacionais. Wienlaand quer sobretudo ser esbofeteado pela não coerção.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A minha avó



A minha avó costumava contar histórias assim. Ela era perita no fim do mundo e achava estranho ter nascido com um pé dentro desta espécie e o outro, visivelmente deslocado, na boca mórbida da suspeita e no sexo ufano da ironia. A minha avó passava o tempo a coser mentiras umas às outras, criou o crochet cruel das minudências, e ainda se dava ao luxo de povoar essas mentiras de pássaros orientais, paisagens soberbas onde a serenidade e a percepção sofriam os ventos mal representados da hesitação sombria. A minha avó contava-me contos distópicos antes de eu dormir. Sentava-se na cama e falava da falência da Terra, do advento do cripto-individualismo, da comicidade com que, tantas vezes, se reveste a distorção do real, como, por exemplo, na “demonização baudelairiana do riso”. Dizia poemas onde a guerra e o bom senso amavam-se para sempre e a era da demência era mundialmente aplaudida. E por vezes, perguntava: queres que eu te leve a este planeta? Ou preferes ficar esta noite apenas na casa escura do ensino? Falava exactamente assim. Por intermédio de uma rede organizada de metáforas e tiques da elevação do estilo, levemente apoiada na sua língua bífida e sibilina, nas encostas de um português com 35 % de sotaque romeno e 65% de sotaque desconhecido. Falava assim.
Eu tinha 39 anos naquela altura, quase todos os dias 39º de febre e queria muito dormir. Mas, naquela noite, por mais que a senhora se esforçasse, eu não conseguia. Resolvi recorrer ao serviço de avós ao domicílio, secção avós distópicas para netos cínicos, Avenida Marqués del Abandono, Ciudad Irreal.
Vou protestar, pensei. Vou exigir uma avó nova ainda esta noite. Uma que me conte histórias do princípio. Mas entretanto, adormeci.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A vida microscópica dos acontecimentos



Por razões que só daqui a muitas eras poderemos julgar compreender, a superfície da Terra tinha-se estilhaçado, ao ponto de formar mais de 7 biliões de minúsculas ilhas, nenhuma maior do que um abraço dado por um adulto médio a si mesmo. Mas como a catástrofe foi subtil, ocorrendo tudo à velocidade da luz e na vida microscópica dos acontecimentos, nada de muito súbito fora anunciado nos jornais desse dia. As pessoas mimetizavam o mundo antigo, mentalmente. Só isso. Andavam essencialmente distraídas.
Dessas mais de 7 biliões de almas que ficaram à deriva no infraoceano do seu descontentamento, apenas 3 milhões tiveram a sorte de calharem em ilhas contíguas, pensa-se que por estarem a beijar-se sofregamente quando aquela parte do mundo morreu.
Contudo, nenhum destes 3 milhões de potenciais melhores sobreviventes sabe muito bem o que fazer com o outro. Passam os dias na maior estranheza vizinha, mesmo quando apanham a mesma premissa para o mesmo pensamento ou grunhem qualquer coisa que se entrelaça foneticamente com a canção que um deles costuma trautear para espantar o suicídio.

domingo, 30 de outubro de 2011

Saint-Anne de la Nuit



Sou pago para revelar o núcleo do sono e escrever a mais bela biografia inerte de Sainte-Anne de la Nuit. O meu trabalho é muito simples: consiste apenas em apreender as imagens que o corpo inapelável da santa segrega, enquanto o sono a sustenta através de finíssimos fios. E observar a expressão de um corpo desintegrado, atirado ao falso desinteresse que dizem demostrar por simulacros os ávidos corrigidos.
É mesmo muito simples, repare: eu sou pago para lamber a história de ninguém. Sento-me todas as noites confortavelmente numa cadeira, junto da cama onde estão os restos imortais de Sainte-Anne de la Nuit. As velas estão acesas e o silêncio, porque está próximo da voz de um animal extinto, solta uma brisa benevolente que expira impropérios, beija as chamas e torna as suas sombras na parede da caverna de qualidade muito superior à verdade propriamente dita.
Para alcançar o grau de santa, Saint-Anne de la Nuit só teve de ser boa em toda a extensão da noite e do dia, e, na altura do realce, ter um pé descalço espetado no vértice da partida e o outro mergulhado no tétano do êxtase.
Repare, é mesmo muito simples: eu sou pago para aprender o que da noite de De la Nuit continuamente se desprende e desdiz, a técnica daquela desmotivação parturiente, e observar o seu corpo nu, minuciosamente pousado no desdém, datado e assinado pelo infinito.
É claro que amo o que faço. Todos os dias vigio um corpo - percebe isso? - comento a sua nudez coberta de morte relativa, além de ter uma enorme permissão científica para o investigar, mexer, punir, instituir e destituir, é já inútil demonstrar por A mais B que aquele corpo não existe, lutar dignamente contra a sua terrível simetria.
Tenho de lhe contar só mais isto: há dias em que uma lenta e imóvel sublevação no seu sono conduz-me depressa ao incensado desatino; há dias em que a sua tomada de posição é tal perante a verticalidade ridícula da vida que sou eu quem se desintegra nessa tonelada de indiferença e areia que os mortos fingidos costumam vestir por cima da inutilidade fácil do seu marfim; há dias em que assisto ao hastear da bandeira da república popular da entropia, à proclamação da capital do desejo na praia privativa dos meus dedos, últimos habitantes das suas ilhas inadmissíveis.
Nesses dias, espero pacientemente a noite, e mal a invenção humana abandona totalmente o museu, deixo simplesmente de escrever, de resistir. Deixo as minhas roupas escorrerem pela cadeira, levanto-me, aproximo-me da cama e deito-me nu com Sainte-Anne de la Nuit.

domingo, 16 de outubro de 2011

Carlos Duende Palacios



Carlos Duende Palacios tinha uma certa relutância em acreditar que existia. Por vezes, chegava mesmo a desacreditar nos seus pés, ou nas suas mãos, ou nas frases que acabava de ouvir de si, como uma evidência sagrada e assassina, e a negar o eco do passado e as medidas de uma identidade já de si desidratada e faminta numa fracção de tempo imperceptível e durante toda a tarde incrédula.
A forte e cada vez mais perversa colonização do corpo por esse sopro de ausência atribuída levou-o à desacreditação total dos mecanismos de representação da existência e depois, como não podia deixar de ser, à tão esperada certeza de ter deixado de vez a estação do sentido, dirigindo-se desordenadamente para nenhum sítio, atravessando como um bêbado solene as persistentes fronteiras do adeus.
Palacios viveu morto nessa certeza até morrer efectivamente, segundo os cânones da época e o pacto entre a realidade e a resolução magistral do incorrigível. Mas porque ninguém acreditava que Palacios pudesse estar de facto morto (mesmo quando Palacios existia), nunca ninguém deixou Palacios morrer de facto e existir na falácia daqueles que sabiam que, de facto, Palacios tinha morrido.

sábado, 8 de outubro de 2011

Albert Albrecht



Hoje, Albert Albrecht não sente o mesmo domicílio, a mesma certeza. Quer dizer, não é bem Albert Albrecht. É um vizinho de si mesmo. Por isso, não sei se podemos realmente falar de Albert Albrecht ou de alguém que encarna Albert Albrecht neste dia, alguém que sintonizou Albert Albrecht, como quem sintoniza um humor repentino, deita-se na banheira às escuras e espera que o resto traga na espuma a manhã do pensamento hardcore.
Pondo as coisas noutra perspectiva: ainda que consciente de tudo isto, Albert Albrecht não sabe como nem quando sofreu essa deslocação, esse incentivo de si para si. Com a noção temporal asfixiada e desiludida, Albrecht decide eternizar esse dia – o dia em que já é não bem Albert, mas um vizinho de si – e começa a vender o segundo ao preço do século com a naturalidade de um velho domador de circo.
Hoje, Albert Albrecht agarrou-se de tal forma à sua própria conveniência que quase lhe ia partindo os limites. Tomou as cápsulas de lirismo bem cedo, felicitou o seu corpo fervoroso com tenacidade e usura repentinas e releu o irrepreensível salmo que o tornou possível, apesar da chegada ausência de si mesmo. Depois, Albrecht fez-se à rua, já com os paramentos do sucesso e o milagre implícito da sua nova auto-estima.
Nessa mesma noite, na noite desse dia infinito, Albert Albrecht conhece Narcisa. De bar em bar, tornam-se mais e mais propícios para arrombar a casa da tentação que os vitima e mobilar de pássaros os nexos da destreza. Deram inutilmente e várias vezes as mãos. Engoliram cerca de 35 cl de saliva. Entornaram vinho com competência e alegria, nunca paz.
Nesse dia, alguns anos passaram. Albert Albrecht estava de facto livre do acontecimento vazio que era ele próprio antes de o ser, mas só até se dar conta de que tinha perdido a sua outra imagem nas equânimes águas de uma nova deslocação. Agora, Albert Albrecht Stimmel era já parte de um incentivo de si para um outro fora de si mesmo, e, pela primeira vez, esqueceu-se do seu verdadeiro acontecimento.
Narcisa fê-lo muito infeliz e para sempre, e o único filho que o casal teve padecia (e padece ainda) de nunca existir.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

María Valencia Insignia



María Valencia Insignia. O corpo condecorado de sal. Não demorou muito. Não demora muito, normalmente. As certezas têm mil patas e asas. As certezas são insectos a sul de todas as eventualidades possíveis. As certezas matam um homem em menos de um hino, que é a partícula de tempo imediatamente inferior ao instante abissal. E a evidência viaja à velocidade da luz. E o sal deposita-se no fundo, tão insolúvel e estéril como o enigma do olhar e o rosto aflito, a pose pretensamente indelével, pouca ou nenhuma maquilhagem visível, não fossem os demónios às avessas e às cegas conferir ao número um tom difícil, negro e difícil, com as secreções todas em teu poder, María, com a facilidade com que encarnaste o complemento directo numa frase onde o sujeito era a vítima. E eu, casualmente, o vilão.
Amar é defender a tese da nudez antes mesmo de esta ser vista. Numa rua deserta, alguém apregoa o impossível. É cálculo divinatório cheio de probabilidades de falhar, mas sem nenhuma inveja ou medo do dia seguinte. É humano, como as fezes. Mas é também eco da distância e a soma mais bela que se conhece de insucessos astrofísicos. Por isso eu não respeitei o teu credo, María. E depois de termos arrumado os teus estorvos e os meus, fomos brincar para onde a culpa beija a mais anaeróbia mentira.
Nus, necessariamente nus, em Marienbad.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Realidade



Enquanto o Verão termina, com a ternura patológica de uma amante sem braços, ouço contarem-me a história de um antigo rei louco que fabricava realidade. Parece que à medida que ia enlouquecendo mais e mais, o rei adquiria também mais poder, conhecimento, ouro, sábios e laboratórios sofisticados, o que lhe adiava consequentemente a queda abrupta na imbecilidade total. Mas nunca chegava a curar-se. O saldo era sempre positivo para o lado da enfermidade e o poder, o conhecimento, o ouro, os sábios e os laboratórios sofisticados detinham-se invariavelmente diante de cada crise do monarca.
Um dia, o rei tornou-se dono do planeta, governador da natureza e depositário do acaso, e a realidade deixou de ser um propósito real.

domingo, 18 de setembro de 2011

Vlad e Muriel



O paradoxo é conhecido. Pode uma força constante e insubestimável suscitar algum tipo de efeito físico num objecto infinitamente inamovível? Vlad e Muriel acreditavam que sim. Estavam espontaneamente perdidos numa floresta de convenções, arame farpado e vigilância sublime, a noite era como um mapa que mudasse ao segundo de rosto, sentido e leituras possíveis, mas alguma coisa os levava a que permanecessem ali, na inexactidão primordial de uma justificação vazia, debaixo de uma queda de água negra formada pela irresolução, pelos temíveis ventos que sopram nos arredores do livre-arbítrio e pela recompensa romântica de se julgarem atravessados pela singularidade de um reino.
Apesar dos limites muito pouco generosos da floresta, o seu desencontro tornou-se rapidamente crónico e era explicado, na época, por uma inevitabilidade reactiva: enquanto Vlad pensava deslocar-se de X para Y, Muriel ficava temporiamente incapaz de imaginar Y e vice-versa, tornando impossível a simultaneidade espacial e a deslocação ainda que microscópica da sua desejada intersecção no permitido.
As horas, os dias, as semanas e os meses passaram e nem Vlad nem Muriel viram mais a luz do dia, nem de si próprios obtiveram o espanto que a visão e o tacto do outro segregam, nem por alguma qualquer probabilidade mínima, num ponto onde o inverosímil negoceia com uma pequena distracção da certeza. Nada. Mas eles continuavam ali. À procura de uma resposta solúvel nos seus zero por cento. A fabricar o veneno e o antídoto mais potentes, as jogadas mais nuas e vestidas, habituados cada vez mais a não serem. Foi quando o paradoxo desapareceu.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Museu de História Artificial


Um homem acorda, abre as portas do seu museu de História Artificial. Dirige-se ao quadro da luz. Acende mais de um bilião de lâmpadas com o sorriso. O museu ilumina-se. O homem ilumina-se. Reconhece o cenário da noite anterior. Por toda a sala, o seu quarto é projectado de uma forma muito vívida, mas sem muitos dos pormenores com que um olhar exterior poderia articular uma outra impressão. Para ter acesso a tudo, para obter a versão integral e em HD da sua noite anterior, sem as falhas a que normalmente está habituado que a sua memória o limite, este homem deveria ter dormido mais, bebido menos, e sobretudo não podia ter sucumbido tão cedo ao arrependimento, que o entregou imediatamente ao mais imerecido declínio.
Ao fundo da sala, uma cama alvoraçada, como as chamas quando o fogo é forte e egoísta. A curiosidade é o telescópio instantâneo da vontade e a inconveniência de olhar de si para si, do seu eu mais velho para o seu eu mais novo, traduziu-se numa aproximação lenta ao leito daquela morte pequenina. No segundo seguinte, vê-se a ele mesmo na cama com Romínika. A ondulação louca dos lençóis fez embaciar a objectiva. Uma pequena praia de nudistas é agora atingida pelo protagonismo de alguém que, do futuro, torna-se presente, extremamente presente, ao ponto de apontar a pistola aos dois e a decisão (também apontada, mas para si próprio) de se suicidar a seguir.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sinais inflamatórios vários



Para a tua pergunta adesiva eu tinha a resposta inflamatória do âmago, um príncipe pardo na ponta da língua com uma proposta monumental, três ou quatro metros quadrados de sílabas que passado um segundo já nada significavam, a difícil manutenção do meu olhar precipitado enquanto falavas, falavas, como se falar fosse a única forma adequada de sustentação, de apaziguamento terrestre, de gravidade seleccionada, tu falavas e eu escondia-me atrás da reputação sólida das tuas palavras, deitado no divã da recepção, presente, mas atrás do diálogo, só para te ver falar, tirava o som do teu ser e ficava a ver-te falar, os lábios a mastigarem silêncios e realces (e a própria mudez artificial), os dedos que dançavam entre os dédalos e os privilégios do acaso, segurando um cigarro ainda intacto, os magníficos vitrais na abóbada de um gesto menos pensado, a grinalda do sopro que chegava, apesar da fonte inaudível, a tocar as minhas mais profundas convicções imorais.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A sala vizinha



A sala é uma nave temporal e o imóvel (se existir o imóvel) viaja a uma velocidade constante e arrependida. A minha imobilidade é outra acção, uma acção superior à acção da sala, um palácio que fosse o fogo e o resultado de todas as forças em equilíbrio, num hostil e precário equilíbrio pela impossibilidade de te ver agora, ouvir a tua voz agora, friccionar a tua imobilidade agora, olear esta inércia de códigos proibidos.
A sala, apesar de tudo, apesar do seu ritmo involuntário e constante, apesar da sua aparência de sala e só de sala, apesar da sua pertinácia objectiva, apesar da sua taxidermia de sala, apesar do aspecto de animal minimal empalhado e acrítico, apesar da magreza dos adjectivos, de todos os adjectivos, a sala, esta sala, conduz-me até ti.
Porque não é o espaço que conta num país tão pequenino como o nosso. É o tempo. E há sempre salas ou coisas como salas que se dirigem estaticamente e se desprendem do tempo infinitamente para ti. E em alguma delas vou eu. Um poeta musculado pelo atrito.
O resto é feroz simetria.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

The living room



A insolência não se lembra de ter oferecido à insónia um tratado de insalubridade geral, e a sala é o meu termo, o meu trono, e o meu trauma. A sala reage à minha chegada, com a mentalidade ruidosa das madeiras e os estalidos próprios dos objectos que dormem eternidades. Tudo indica que ainda é pouco para que a miséria seja mítica e descrita com a retórica da sua melhor importância. Mas o silêncio, essa minúscula súplica, inunda a sala de imóveis divergências e fulminados realces. Há também um alfabeto antiquíssimo, cada segundo que passa. A sensação da nudez impassível do indecifrável. Uma monótona e viscosa mastigação. E a aridez máxima dos planos. A tragicómica geometria vagamente descontrolada, a bancarrota da vontade e, no entanto, a minha chegada àquela sala, como se o destino não fosse feito para ser desenhado mas contornado depois de alguém o desenhar.
Na sala, a pobreza age como uma amante. Na sala, a noite veste uma lingerie especial. Na sala a vida vem em itálico, a morte fica sem efeito e a tristeza é servida com champanhe. Na sala, na sala.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pareidolia




Lembro-me de ser pequeno e ver almas mortas nos realces apócrifos dos cortinados, batalhas nas rachaduras e nas humidades dos tectos, inscrições diabólicas nos nós da madeira dos móveis, e novas possibilidades de vida na sombra cruzada dos objectos que me definiam. O termo “pareidolia” foi o melhor que a ciência encontrou para designar este fenómeno que, ao que parece, oscila entre o aleatório e o significativo, o lúdico, o neurótico e o espiritual, uma qualquer sorte de vocação degenerada para vermos no que está aquilo que não está e vice-versa, num interminável jogo de luz e sombra e reflexos alienígenas.
A inocência – é sabido – é uma forma de arte subliminar que nega o mundo para poder subsistir. Nela se confundem e confluem o mais frágil empirismo e a rejeição fervorosa e incauta da queda. A inocência só vê o que quer ver, só ouve o que quer ouvir. Autoproclamada e insincera, a inocência é uma nudez muito íngreme, incapaz de ser vestida pelos melhores designers do evidente.
Um dia, fiquei curado da inocência. Ou assim julguei. Um cortinado era apenas um cortinado, com os seus relevos ridículos. Um tecto manchado era só um tecto manchado. Os nós da madeira, só os nós da madeira, e a sombra cruzada dos objectos, casualidade e antipatia.
Mas mais tarde a doença cumpriu com o que prometera e voltou a visitar-me. Uma pareidolia em segundo ou em terceiro grau começou a assombrar o meu espírito. Foi quando li e compreendi que Pierre Menard era de facto o autor de Dom Quixote e não esse farsante do Cervantes y Saavedra. Foi quando percebi que não era Anna Alkma que amava, mas a bissectriz formada pelo ângulo agudo de sombra e luz que se interpôs entre Anna e eu. Foi quando, na balança atómica do meu umbigo, voltou a pesar mais o aleatório e o significativo, o lúdico, o neurótico e o espiritual. Foi quando, pela primeira vez, fiz amor com a tua forma ausente e parti os espelhos todos do respeito pelo impossível.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cianuro




Dempsey, o grande Dempsey Denial, agarrou no último número da revista “Cianuro” e sentou-se com um copo de champanhe numa cadeira que ardia debaixo do caramanchão. A tarde escoava por um orifício secreto, o vento dedilhava nas cartilagens do silêncio uma música pálida, quase inaudível, que o sol ao morrer despenteava no incerto, e Dempsey estava confortável dentro do seu 14755º dia de vida. “Cianuro”, a revista de arte escabrosa e literatura acidental que Dempsey folheava, trazia agora um suplemento dedicado à paisagística sentimental, com ilustrações de um tal Phoekus Phantash (um pouco mórbidas e pouco nítidas) e palavras de Rome Jus Van-Van, pseudónimo literário que Dempsey um dia atribuiu à imagem que sempre fez de si mesmo.
À medida que o álcool, o gás e o milagre dourado do champanhe congestionava o cérebro de Dempsey, naquele final de tarde imperial e dorido, à medida que relia e molhava os olhos nas palavras selvagens que ele – sob a autoridade de Rome Jus Van-Van – assinara diabolicamente ao lado dos desenhos desfigurados de Phoekus Phantash, um sorriso carnívoro foi-lhe nascendo primeiro a partir das comissuras dos lábios, alastrando-se depois a toda a península facial, desenhando pequenos rios de sangue à superfície.
É que Dempsey sabia que, para além do insondável Phoekus Phantash, todos os outros colaboradores da “Cianuro”, Manuel Feist, Carlos Columna, Raquel Realce, Alfred Prufock, Roberta Cajal, Evangelio Arte-Enrique, eram criações suas. Assim como o director, Douglas Datsun Jr., a amante do director, Fabrizzia Flame, o neto mais novo do porteiro da redacção da “Cianuro”, Joyce Emmanuel, até Nídia Witt, a mulher da limpeza a quem todos os dias Dempsey dava os bons dias, também ela era Leonor Nieves na vida real, artista de rua muito íngreme, VIH positivo, musa das ovulações imperfeitas.
E depois de pensar nisto, e já a bordo da grande fadiga do mundo, Dempsey passou pelo sono e sonhou que acenava aos seus leitores com desprezo.

sábado, 30 de julho de 2011

Bucareste



À falta de vampiros e adjectivos,
Bucareste dormia com a complacência
de uma vítima cercada pela sua pose mais bela.
Bucareste sonhava que era Estocolmo
sob a forma de síndrome, em Bucareste.
E que o nevoeiro, essa língua franca e letárgica,
latina, espessa, bífida, sempre adjacente ao brilho,
como os gatos à constatação da festa,
sempre tão desassossegadamente quieta,
para além do Dâmboviţa, banhava Bucareste.
Bucareste sonhava consigo em Bucareste,
mas era já demasiado tarde
para que se apercebesse de si,
consigo em Bucareste
e, por isso, não sonhava
bem consigo em Bucareste
mas com o reflexo de uma Paris
estacionária e raquítica.
De repente, é como que se dois desencontrados sofressem
a mesma esquina.
De repente, é como que se a vida fosse de facto difícil,
mas difícil com sabor a morango e baunilha,
difícil com tremendos trejeitos de alegre.
De repente, Paris desaparece. E só resta Budapeste.
De repente, os desencontrados acendem
tudo aquilo que os separa de tudo
aquilo que os separa de sempre. E friccionam a pele.
De repente, os prepúcios do acaso
sangram e rompem
desrespeitando completamente
a vulva do magnífico.

sábado, 23 de julho de 2011

Os desequilibristas



Admiro a arte menor dos desequilibristas.
Dão-lhes um rumo, um método, um fio
suficientemente largo para a passagem,
tão breve, da vida, tão breve,
mas mesmo assim eles ousam desafiar o fio,
eles promovem a estreiteza no máximo
da largura possível, eles imaginam,
por exemplo, 400 quilos sobre um fio,
um touro sobre um fio, por mais largo que seja,
cai na indisciplina
e na mais brutal transparência
e eles com tesouras no sorriso
celebram
a sua magnitude mínima.
Os desequilibristas endossam o mundo.
Precavêm-se da impossibilidade do paraíso.
Filhos da tontura, netos do improviso,
os desequilibristas aprendem a cair,
ensinam a cair, sem, no entanto, se deixarem levar
pela insalubre omnipresença da queda.
É que os desequilibristas caem noutra queda.
Aquela que origina sempre
novos desequilibristas
e quedas por vir.

sábado, 9 de julho de 2011

Carlos Klenner



A Singapura fica muito longe para quem não tem asas e passa o resto da sua vida numa história situada num único país, provavelmente inventado à pressa, por meras questões de timing editorial e enfoque estratégico. Ou então: a personagem secundária de um livro queixa-se do determinismo da diegese e bate às portas do capítulo errado, o único em que está viva e enterrada para sempre.
O autor, entretanto, dorme sobre a proposta de outros livros, novos temas. Ressona como quem faz poemas ou amor consigo mesmo em apneia. Não acredita que aquela personagem volte a aparecer.
No entanto, por motivos que excedem a razão e excitam a controvérsia, um dia a personagem secundária desse livro resolve arrombar uma das portas do capítulo onde está oportunamente encerrada na mesma fala há séculos.
A sua terna descrição é sumária e a sua intervenção, relapsa na dureza do romance, não tem pretensões vitalícias, nem instintos programáticos excelentes. Mesmo assim, é provável que Carlos Klenner encontre uma mulher. A mulher que ama loucamente Felipe Espiritu Santo de Saavedra. Mas é possível também que durante o tempo em que Margarita Von Haff sacia o quotidiano, vai à rua, por exemplo, tomar café, pagar as contas, comprar leite, carne e alface, à farmácia, ao notário, ao parque municipal, ao ginásio, às aulas de equitação do comportamento, é possível que Carlos Klenner lhe apareça à frente, mais do que uma vez até, e consiga desviar o eixo gravitacional do romance e com ela prepare uma morte formidável para Felipe Espíritu Santo de Saavedra e abalroe novos capítulos e novos encadeamentos e já nada do que então era seja o mesmo, nem mesmo Klenner, Margarita, ou o novo romance que o autor adormecido mantém temporiamente com Nastenka.

sábado, 2 de julho de 2011

Uma questão de etiqueta



As rotas da cerimónia demoram a decorar. Sinuosos trejeitos, tiques vários, a apicultura pobre da decência que espalha por todo o lado o seu fedor a urina queimada, poses impotentes e pormenores orbiculares. Era difícil manter-se em pé, quanto mais fixar a existência na fotogenia do impasse. Mas tinha de ser assim. As ordens tinham sido muito claras.
Quando Flectil, o mordomo, desapareceu por detrás daquilo que parecia ser a entrada de uma cave, uma luz muito intensa e árida incendiou o convidado. Através de um sistema de som cuidadosamente instalado na sapiência sórdida da casa, pôde escutar a voz da condessa cumprimentando-o e depois algumas breves instruções sobre como deveria dirigir-se até à sala de jantar. O caminho teria de forçosamente perscrutar o critério escrupuloso dos seus passos e estes o da cadência constante, caso contrário, um passo ou uma nota em falso e os meros 30 metros que separavam a entrada da sala de jantar decuplicar-se-iam, sem mais.
A extravagância aumenta a potência dos espelhos e fere a matemática formal. À medida que o convidado avançava pelo longo corredor que separava o ponto de partida do local onde o esperava a condessa e o acaso, a sua indispensável correcção muitas vezes escorregou no desejo de a possuir contra todas as paredes daquela casa, o seu rosto mergulhou nas piores inadequações dos sentidos, a sua firmeza triste e encenada foi punida pela inconveniência da antecipação.
Mais de 10 horas depois e a pouco menos de 7 metros da porta da sala de jantar, o convidado mostrou-se incapaz de prosseguir e perguntou se seria possível parar e masturbar-se. A voz considerou, com a desfaçatez das vozes gravadas. Depois, desatou a rir e voltou a falar das regras estritas do jogo, dos 30 metros famosos por se decuplicarem, da necrodinâmica da precisão.
O convidado achou tudo muito estranho e imediatamente a seguir resolveu correr e começou a despir-se e a correr para a porta aberta da sala.
Ao quinto segundo tropeçou numa qualquer desvantagem funcional, fez uma pirueta inútil no ar e ao pouco que pôde ver ainda não conseguiu dar palavras.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Puma Bartolomeu Júpiter



Puma Bartolomeu Júpiter acaba de receber, summa cum laude, a maior ovação da sua vida. É uma torrente eléctrica de mãos na intermitência histérica e sublime dos aplausos, uma plateia antiga que ergue do nada um exército de rostos convencidíssimos e cauterizados, entre o rigor atrófico, a inveja fúnebre e a transpiração, e, como se isso não bastasse, o estertor das palmas das mãos de quem, finalmente, compreende, sofre um verdadeiro ataque de compreensão e fornece, por isso, ao escândalo protocolar, uma dose extra de cinismo e elegante mal-estar.
A tese de Júpiter é aparentemente muito simples: Júpiter provou que o amor dissolve-se no sexo, antes mesmo de lhe tocar. Partiu primeiro e até por intermédio das analogias da ingenuidade do composto fictício de Asimov, a “thiotiomoline”, composto este que se dissolveria em água antes mesmo de lhe tocar, e transferiu as propriedades da “thiotiomoline” para o amor e as da água para o sexo.
À forçosa semelhança de Asimov, Júpiter acreditava que o amor (100% solúvel no sexo) antecipava materialmente a sua solubilidade, porque, é ele que escreve, “há no composto raro do amor um registo espacio-temporal cindido, onde o átomo de carbono cria ligações químicas apaixonadamente reactivas à estabilidade física geral”.
O mundo não teria mudado sem esta tese de Júpiter. A sua invenção foi de tal forma sobrevalorizada, o nome de Júpiter foi tão ouvido e citado, dentro e fora da academia, que tudo se tornou previamente solúvel em tudo, tudo com o seu átomo de carbono instável, tudo com a sua face dupla e miserável, tudo com a sua insurreição temporal.
“Há um momento – pensa Júpiter, esmagado pelos aplausos – há um momento em que alguma coisa me leva a descrer profundamente na espécie humana. É como que se eu não fosse inteiramente solúvel nela e nos seus e nos meus argumentos armados viesse à tona o cadáver louco da sua antecipação.”

sábado, 18 de junho de 2011

The copenhagen kiss



A noite em Copenhaga é infeliz. A língua é áspera de faisões e pesadelos e as duas luas que se vêem daqui não condizem.
Sobra razão e gente demasiadamente submersível, uma inabilidade arqueológica e sincera para sorrir. Copenhaga gravita e navega na intolerância desértica do Norte
e do seu ignóbil declínio. Copenhaga é um navio
um pouco maior do que a sua cópia
de gelo, tripulado pelos fantasmas siameses
do destino. Copenhaga é de compleição tímida,
maioritariamente pálida, indescritivelmente geométrica.
E, ao mesmo tempo,
Copenhaga acompanha bem com um bom vinho
prescindido, vulcões com a disponibilidade do Brasil
em dias de festa,
uma ou outra insubordinação de asas partidas.
Mas é só quando Copenhaga ganha a visita do teu séquito
que eu sou verdadeiramente
infeliz.

sábado, 11 de junho de 2011

Le mal du pays




Às vezes, é só a cabeça de um leopardo doente.
O rancor musical de uma cesta de fruta, à cabeceira.
Um silêncio apócrifo, puro, pouco higiénico até,
a matemática mórbida da chuva contra a inconveniência
que regressa e a saga cega de alguns insectos terrivelmente felizes
pela morte recente do teu sexo,
e do teu peito, satélite natural da armadilha,
onde a manhã apagou mal o seu cigarro desaparecido.
Depois, a calma suja e pulmonar do dia seguinte.
O teu corpo, cheio de espadas e sequelas,
atirado à baba lenta da permanência,
à luz que lhe dá de beber
e que, ao mesmo tempo, aprende lentamente a destituí-lo.
Nove exactos segundos de apneia, para no décimo apenas meio mundo emergir.
Como um país, cuja capital ficara devastada por gritos e agora renascesse
na exausta arquitectura das suas antecedências
o equívoco.

sábado, 28 de maio de 2011

O tempo do sol se pôr






Pedes-me que vá contigo ver a tarde rebentar, assistir a um espectáculo único, em estreia absoluta numa praia bem afastada da cidade e de toda a máquina de má-criação ocidental, um filme propositadamente mudo projectado em céu aberto, com uma narrativa demasiadamente linear e efeitos sonoros arcaicos, apesar de apresentar um elenco de luxo, entre estrelas prematuras e luas célebres pela sua perspicácia ornamental. Pedes: por favor, vem ver comigo a tarde rebentar, a tarde rebentar, a tarde rebentar, o teu telefone dá eco, mas o eco é só uma reflexão do som, nada mais, não tem substância, sentido, não é nenhum indício de nada, eu é que ouço tudo multiplicado, vejo tudo multiplicado, sinto tudo multiplicado, agora, com o meu telefone a arder nas mãos e os uivos transparentes do desejo que a tua voz adoça com coragem, agora que tu pedes em demasia, agora que me amarras ao valor acrescentado da tua chamada, pedaços de linhas trocadas e restos de álcool nas sílabas onde o sol demora a entrar, agora que me espancas com um convite apesar de tudo simpático, não fosse o facto de ocultar a bomba atómica debaixo de tanta metáfora desinteressada e um cheiro forte a ganância, realce e convicção.
A partir de determinada altura, já não pedes, persuades. A tua voz é uma câmara fechada, onde o eco corrige as suas perfurações com sangue e óleo de sândalo. A tua voz é perfeita, porque é performática. A tua voz elabora um pão minúsculo, altamente aliterado, que eu como, sílaba a sílaba, sem dar por nada. A a sua assimilação é imediata e rapidamente entra o sol em circulação. O pão tem a informação essencial que o teu pedido verbal transporta e explora em metáforas, com a excepção de actuar directamente sobre o meu sistema nervoso central, e suspender-me como uma droga suspende os membros e a resposta mais provável.
As reticências não duram eternamente, a tarde vai-se afundando e é preciso que eu diga qualquer coisa entretanto, mas eu continuo calado, tão calado como um afogado entrevistado em plena acção, Então? Anda lá. Passas primeiro por minha casa?, e eu, com a boca cosida, cheia de palavras derrubadas, aftas, pequenos cadáveres monumentais, eu murmurei qualquer coisa incompreensivelmente cómica, numa língua que nunca soube falar. Foi então que tu tomaste o meu grunhido como um sim (também o meu telefone dava eco, disseste, para terminar) e incluíste no silêncio final um “Até já” sonâmbulo, e foi também então que a chamada caiu desamparada e os pontos que eu tinha nos lábios desapareceram, sem mais, e o ser voltou ao seu lugar.

sábado, 21 de maio de 2011

Gritar






Às doze badaladas do mês de Agosto, em Paris, 1954, e mais precisamente num quarto de um homem que dorme, no sentido que Perec quis que um homem dormisse, no hemisfério norte do seu nada, algures no confessionário mais sólido da cidade, soa uma sirene, primeiro secreta, logo determinante. A sirene e o seu mundo estúpido, matemático e desorganizado acordam o senhor Jacques. Há, antes de mais, um alvoroço na cama, no quarto, o silêncio amarrotado de quem acabou de perder o sonho e a única tábua ou túnica de salvação.
Depois de entrar na máquina que o expulsou do sonho e o devolveu ao seu âmbito vulgar, o senhor Jacques acorda verdadeiramente, é obrigado a acordar, cresce dentro da sua idiotia de recém-acordado e sua, sua muito, como um náufrago. Os batimentos cardíacos, como pombas às cabeçadas nas estátuas das praças das cidades principais. A respiração, tecnicamente ofegante, mas sobretudo irreal, o fole de um fantasma, música rouca, olhos sem qualquer realce. Depois, a sensação do corpo mal ressuscitado. Mil vezes, a sensação do suicida falhado e a boca seca e a convicção rastejante. A sensação do irrecuperável, a arquitectura invertida do irrecuperável, e o espectáculo que a perda pode por vezes oferecer a um homem que sonhava que dormia, no sentido que Perec quis que um homem dormisse, no hemisfério norte do seu nada.
O senhor Jacques levanta-se, cede depressa ao deus da vertigem o seu medo das profundidades, serve o príncipe da diplopia geral, entrega-se ao mundo invertebrado do cansaço, do cansaço de quem acorda com a sensação do irrecuperável ao lado, na cama, teria ele mesmo ido para a cama com o cansaço, - pensa o senhor Jacques – ou aquela sensação do irrecuperável imune ao mundo invertebrado do cansaço, que ao som de uma sirene acordou um homem que sonhava que dormia, no sentido que Perec quis que um homem dormisse, no hemisfério norte do seu nada, seria mesmo real?
No deserto das respostas, os segundos passam, como séculos vindouros que chegassem ao presente envenenados. O que resta do sonho, ainda se arrasta com ele como um caimão.

Vemos agora o senhor Jacques a dirigir-se à cozinha, coberto de baba, teorias e cabelos ocasionais, teias de aranha e discordância acrobática e sentimental, disparate remotamente controlado e carência de sol na constatação, vemos o senhor Jacques a acender a luz, a agarrar num copo com aparente leveza, mas que um olhar mais atento descobriria nas terminações nervosas do vidro formas microscópicas de ambição variável, vemos o senhor Jacques a lançar o olhar para a lua que brilha enorme como um alarme, vemos o senhor Jacques despir a parte de baixo das calças do pijama, libertar a única parte que negoceia única e temporariamente com o seu último país em paz, vemos - nunca ouvimos - o senhor Jacques gritar pelo teu nome, gritar muito pelo teu nome, gritar.

sábado, 14 de maio de 2011

O instinto



O instinto tem parte da face desfeita e a boca interditada pela república irreversível da deformação. Por isso, o instinto precisa do suplemento do outro e que o outro lhe devolva a face intacta do seu lugar. O amor, narrado a partir da invenção do outro e dos seus/próprios reflexos consagrados, é apenas uma cãibra do instinto, o tempo de o instinto ir à casa de banho urinar, por vezes com a máscara prolongada de uma erecção acidental.

sábado, 7 de maio de 2011

Retábulo de noções primordiais





São as noções que fazemos um do outro que se despem, nós não. Nós apenas observamos com desespero, poética de espelho e malícia o corpo nu das noções, as suas inúmeras vilosidades e axilas friccionadas. E a forma como elas se confrontam na ofensa que o desejo fixa, na noite do olhar mais árido. Nós somos só os convidados das nossas noções, os escravos vestidos ironicamente de convidados das nossas noções, e por vezes até nem isso, nada mais do que a pretensão opaca da indumentária.



É como que se tivéssemos levado as noções que ambos fazíamos um do outro a uma festa com piscina, troca de casais, alguma esperança de certa forma atlética na sua convicção de derrocada e o rasto de drogas finas e tentaculares. É como Marte, essa nudez aplicada ao outro com uma sede de esboços retrospectivos e escaparates, ponte móvel de si para si, para deixarmos passar o navio
sem sentido




sobre o mar de nada.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Madrid, enquanto Rafael Seno dormia

Apesar de já não contar com o amor e o beneplácito da época, Rafael Seno dormia. Tudo nele funcionava com a terna preocupação de pequenos dispositivos capazes de o predispor a fazer qualquer coisa que o arrancasse de vez da sua terrível batalha diária de “provador de experiências negativas”, afinal, trabalhava como porteiro e ascensorista num edifício velho, triste e ostensivo da Gran Vía, do topo do qual assistia à consumição de Madrid, o centro modernista de Madrid, como um mapa pusilânime e fraudulento, cheio de fissuras e pequenos derrames nos bairros mais congestionados pela boémia, palco de inábeis tribos suicidas. E porque accionava predisposições e dispositivos, depois de ter accionado um interruptor que lhe acendeu o sono e a liberdade faminta do seu último suspiro, Rafael Seno adormeceu. Ele era agora a vítima perfeita de um ilustre e maldito despojamento infinitamente multiplicado pelas ruas emaranhadas do seu equívoco, muito perto da praça onde tudo desaprende a ser. E nessa praça, tão parecida à de Cibeles, ele era a opção pelo seu desaparecimento nítido, e a prova viva, mas ausente, do seu reaparecimento numa outra cidade qualquer, numa cidade ocupada pelos seus mais belos desejos nazis.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O momento de Doisneau



1. Muito antes de Freud, já Stanislavski tinha chegado à conclusão de que um sentimento é como um dirigível, por mais imenso que seja é sempre mais leve do que o ar, e no seu cockpit há pelo menos um narrador e um co-narrador, os dois muito atentos ao seu papel de condutores únicos e exímios do destino comum de uma narrativa, que é sempre uma viagem mais ou menos longa e significativa de balão ou dirigível, atravessando o capítulo da nudez de tudo à velocidade imprevista de sempre.

2. A corporização radical da personagem proposta por Stanislavski é, no mínimo, apetecível: Stanislavski pretende imitar a fundo o real, usando e abusando dos vínculos ditos “naturais” da realidade e, detendo-se nas suas luminosas estratégias de imitação eficazes e antigas, construir uma espécie de fenómeno de actuação sobre a actuação propriamente dita, recebendo do texto crepusculares mundos fingidos, sentidos como Pessoa queria que sentíssemos o fingimento, projectando-o muito para além das suas próprias fronteiras e expectativas.

3. No fundo, Stanislavski queria imprimir no actor aquilo que no poeta navega apenas na distância mater da sua escrita. Ou, talvez, por outro lado, dotar o poeta de toda aquela perícia que envolve o actor, da maquinaria ignóbil do corpo humano quando realçado entre os seus, entre os que assistem vestidos ao bailado analfabeto dos seus gestos e passos torpes na periferia do indizível, inventário tradicional de posturas patéticas e autênticas. Mas mais do que isso, Stanislavski tinha vontade de autenticidade histérica, noções muito presentes no amor, quando o impacto entre dois corpos e os papeis que lhes foram atribuídos produz esse tão estranho “método de acções físicas”, tendo apenas em vista a satisfação de uma promessa proveniente do interior incómodo do indivíduo, que sempre nos é indevida, excepto nos lugares extremos.

4. Ora, todo o lugar é um lugar extremo, se nada mais além desse lugar existir. Toda a expectativa consumada é uma ópera que conspira. Como no momento de Doisneau.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Diotima Drake





As inevitáveis pernas de Diotima Drake tocam-se em média mais de 13.776 vezes por dia. Diotima usa e abusa das suas pernas nas deslocações que faz e que não faz, mas imagina, meras necessidades que apelam a forças puramente motrizes e aos cabelos secretos das adstringências, mas também quando se senta na cadeira de um café e se levanta depois de ter conversado alguns minutos com a chávena e deixado uma marca de batom na porcelana breve do seu destino. De repente, um cigarro nos seus dedos finos e trémulos e o cruzar e descruzar das pernas transparentes de mérito e de técnica, que ainda mais fazem subir a contagem das vezes em que as pernas de Diotima tocam uma na outra, delirantes, durante um dia inteiro e ainda mais afogam os olhos de quem a olha – e olham-na tão frequentemente – com os olhos oblíquos da anarquia.
De igual forma, quando sente nojo das abas sujas das sanitas públicas e gosta de sentir o cântico alto e solene do mijo com a verticalidade assumida que só um homem, de facto, pode conhecer, Diotima levanta a saia, cria o melhor ângulo para a melhor pontaria possível e faz força nas pernas, muita força nas pernas, até produzir uma sequência reconfortante de pingas de mijo que ela traduz em música minimal, êxtases sincréticos, um teclado de pérolas a despedaçar-se contra a indiferença radical das águas da sanita, bem na boca escura do rosto impávido do funcionalismo: uma capela de silêncio octogonal sem janelas ou superfícies imprevistas, entrecortado entretanto por algumas buzinas abafadas por camadas e camadas de distância e resistências, que, em uníssono, recuperam o murmúrio do café cruel, o suspiro contínuo da ventilação da vida, naquele dia, na casa das máquinas do medo.
Hoje, porém, as exigências da locomoção convidaram as pernas de Diotima a tocarem-se ainda mais vezes e mais perigosamente do que é sabido. Como se quisessem descobrir o fogo e através das vozes infernais da fricção desenhar calor e o calor rapidamente esculpir a sua própria ética abrasiva, as pernas de Diotima suavam gentilmente contra a pontualidade feroz das suas carnes batidas. Hoje, ao sentar-se finalmente na mesa do café, notou que lhe escorriam pelas pernas duas gotas de suor, que transportavam no interior a anarquia suficiente de todos os dias, horas e horas de olhares afogados, os mesmos, os outros, os de toda a gente, cheios de desejo, dioptrias e toxinas. O empregado que normalmente a servia estranhou que, poucos segundos depois de Diotima ter pedido o café servido na mesma chávena de porcelana loquaz e fria, se tivesse levantado e corrido para a casa de banho e batido com a porta com uma violência suspeita e deixasse solto no ar um enxame de pequenos gemidos.

domingo, 10 de abril de 2011

O protectorado do sono




Se entrarmos, agora, devagar, no quarto de Darkheim, Julius Dúbios Moebius Darkheim, a escuridão e o silêncio que nos acompanharam já desde o umbral e ao longo do íngreme corredor deixam a sua máscara cair aqui em desvantagem, da mesma forma que uns fios de luz da manhã, violando a persiana, se apressam a recobrar contornos e a dialogar com as formas ofegantes de um corpo verdadeiramente incluído na sua amável extinção.
Ao aproximarmo-nos da cama, vemos o corpo ignóbil e frágil de Darkheim atirado às suas circunstâncias, atravessado pelas flechas da manhã que lhe queimam as pálpebras lacradas com paixão. Vemos a desarrumação fértil dos que se entregam à hipermnésia confabulatória da morte como se fossem funcionários exemplares. Vemos um actor a dormir compulsivamente e à sua volta os lençóis vomitados, restos de alimentos imemoriais, pedaços de animais sagrados, páginas e páginas babadas de alvenaria transcendental.
Sabemos ainda que Darkheim, por exemplo, contratou quem lhe realizasse com propriedade e distinção este nada em que ele nada, imóvel e desterrado, e o mantivesse assim por vários anos, de forma a poder trabalhar mais tempo na sua obra de hipnoplastia reveladora, um palácio no sono e um monumento aos soldados mortos na guerra da solidão. Não sabemos mais nada.
“O protectorado do sono”, foi assim que Julius Dubios Moebius Darkheim quis que fosse denominado o seu território soberano dentro do Estado da Vigília Imperial. É, por isso, com um imenso pesar, que sentimos agora um breve estremecimento e o que poderia ser uma ninhada de distúrbios improváveis debaixo das suas pálpebras, que, trespassadas pelas tropas da Vigília Imperial, se descosessem e revelassem ao homem que dorme em Darkheim Darkheim precisamente acordado, e talvez por isso e pelo susto Darkheim realmente acordasse e provasse a fruta mais escassa da manhã, como o absurdo quando se veste cerimoniosamente para visitar a pobreza da sua condição.

E está tudo dito sobre Darkheim.

sábado, 9 de abril de 2011

Deficientes profundíssimos




Gosto de ver gente pálida sacudida,
agarrada ao polvo do acaso urgente
e à macrocefalia do interdito,
gente pendurada pelos lábios
ao código morse do desaparecimento,
os rostos como quedas de água incompetentes
ou atenuantes submersas da queda,
a entrarem, sorrateiramente, um no outro,
como se dentro de uma caixa negra
se pudesse misturar, agora, com a voz do acidente
a estranheza de lhe ter sobrevivido.
Gosto, ainda mais, do lago diagnosticado
nos confins das suas radiografias:
água da qual sairão amantes indefesos,
ou deficientes hipócritas e profundíssimos.

sábado, 2 de abril de 2011

Morris Mathaia Domínica



Morris Mathaia Domínica chega todas as noites a casa e brinca ao seu século XVII, com um gato que finge ser um príncipe.
As horas passadas naquele maravilhoso equívoco dão-lhe ares de marquesa de periferia, fazem-na passar por proprietária de um improvável futuro que simulasse o passado com perfeição e veneno, inscrevem-na num magnífico palácio coerente com as suas mais altas expectativas, e obrigam-na a um idioma oblíquo e antigo e a usar um longo e ansioso vestido, que, tal como um aforismo, é extensível a tudo, menos ao tempo incerto da sua terrível benevolência.
Pelo menos três vezes por semana Domínica agride o século XVII, pendura-o com uma mão e imobiliza-o perto da sua atitude raríssima, enquanto a outra mão se afunda na flor do seu mais profundo insucesso.
Domínica talvez fosse mais feliz se o exercício do seu erro se detivesse onde ou quando ela própria termina. Continuaria a ser uma valente deprimida, é certo, para quem a vida apenas é o que é, sabe ao que sabe, vale o que vale, mas talvez assim evitasse o requinte do choque que uma inteligência superior sepulta numa mesma natureza reactiva e não complicasse tanto a sua tristeza, nem tivesse tanto medo de a assumir.
Agora, depois de brincar ao seu século XVII, com um gato que finge ser um príncipe, Domínica dorme por fim.
Neste momento, Domínica sonha com a elegância negra do seu século XXV.

sábado, 26 de março de 2011

Santa Suspensão da Descrença (o caso de Maria Jaguar M.)




1. O amor mora na suspensão da descrença. Somos nós que, a certa altura, mantendo a mesma pose de vigilantes do que não auferimos, resolvemos acreditar no amor e desacreditar (nem que seja por breves momentos) na crença de que o amor é, ele próprio, uma crença, com tudo o que uma crença tem de estático e letal.

2. A certa altura da sua vida, também Maria Jaguar M. decide suspender a sua descrença. Já o tinha feito anteriormente com filmes, livros, gestos, concertos, conceitos, mas nunca com ela como autora ou protagonista, nenhuma forma que a levasse como agora ao reflexo, ao seu outro-próprio reflexo, e à árvore milenar da asfixia.
A rota arredondada dos dias, talvez, mas também a liquefacção dos trajectos de sempre, a débil companhia de uma senhora com pelo menos mais 20 anos do que ela e 200% de catolicismo.
Todas estas coisas (e outras que me não me canso de dizer) tiveram o seu peso para que Maria Jaguar M. decidisse suspender a sua descrença e acender um fósforo à porta de um labirinto.

3. O autocarro é um cavalo de chapa quente e monotonia. A manhã colide com o autocarro, que rasga as últimas partículas da noite, desmascara com o seu focinho achatado e inocente as núpcias negras dos vestígios. As pessoas colidem dentro do autocarro, sentadas com a alegre previsibilidade dos dias. Está tudo imensamente triste, mas acaba sempre por haver quem brinque com a convicção de que nem tudo está perdido. Maria Jaguar M., por exemplo, vem distraída. Vem todos os dias distraída. Nunca a vi validar o bilhete. A máquina com ela coíbe-se. Nunca a ouvi dar um passo sequer, mesmo quando sugere ser mortal, o rosto um pouco melancólico, um pouco atribulado e esquecido, entre a descrença e a suspeição de que pode, nem que seja por uma só vez e para sempre, suspender a descrença, voltar à vida. Não leva livros, pelo menos visíveis, mas é como se os levasse. Estou a ensiná-la aos poucos a descrer, a descrer mais ainda, mas a verdade é que ela também me ensina, quando descrê que eu exista na mesma perspectiva que ela queria que eu existisse, só para ela. E, por isso, suspender a descrença tem sido mais literatura que litígio. Mais perfume que consequências.
No entanto - e à hora enganadora que é -, a razão atravessa-a agora de lado a lado, como um raio de sol que movesse o autocarro para fora das leis dos transportes terrestres, abnegados e colectivos. O autocarro finge que voa só para mim. Revolta-se e voa. Dá estranhamente fé do indivíduo.

sábado, 19 de março de 2011

A minudência de um cisne




Meia-noite e a minudência de um cisne. Num determinado ângulo, a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, visível pela vibração das ondas concêntricas, que se formam quando a pedra derruba a sanidade espontânea do charco e deixa-se ir, na validação consequente do gesto, na trepidação elegante e convulsiva, na direcção mais sinistra, até ao fim, até que o atrito a separe do movimento que ela, se pudesse, manteria para sempre impingido.
E como é maravilhoso ver uma pedra deixar-se impingir.
Aproximemos, por isso, a fé da objectiva, a ganância do credo, a prática do sistema mental que o branco do cisne produz no seu duvidoso equilíbrio, como se o cisne não passasse de uma representação fria de um ansiolítico tomado a desoras, perto da periferia do nada a sua total inadequação ao tumulto e não obstante as ondas, a frequência, o imprinting, pedra-água-meia-noite-e-a-minudência-de-um-cisne.
Sejamos leais com as evidências. Foquemos o momento em que a arte radicaliza o momento da meia-noite e da minudência de um cisne, o momento em que o cosmos abre totalmente o ângulo determinado onde só é possível a electrocussão de um cisne, apenas e apesar de tudo, a electrocussão de um cisne, e voltemos às 23 e 59 do cadáver do dia anterior, porque no dia seguinte é meia-noite ainda e a minudência de um cisne.

domingo, 6 de março de 2011

A estranha máquina de Romant





Cidade de Salvetski, 2275. O analista de configurações puras, Peter Von Romant, acaba de inventar um curioso engenho capaz de “extrair do mundo instantes exemplares”. Apesar da sua invisibilidade aparente, a invenção de Romant ocupa a área total do conhecimento humano da época e não foi pensada para ser reproduzida pelas técnicas gerais de representação. “A sua fisionomia – explica Romant – escapa-nos, porque nos escapam os instantes que decorrem até que o nosso cérebro forme uma imagem convincente e estável da máquina. E uma vez que os principais componentes da minha invenção são o pensamento fugaz e o lapso, torna-se inadmissível projectá-la a olho nu, senti-la ou tocá-la senão através do tacto delirante.”
“A máquina – continua Romant – é, ela própria, um instante exemplar. Ela não permanece exequível no espaço humano, porque protege uma falácia sensorial.” Se abandonarmos a retórica Romantiana e nos concentrarmos no essencial, verificamos que, de facto, a sua explicação não carece de mais dados para se afigurar deslumbrante. Mas, ao fazê-lo, ao dar-nos por decidido o trabalho da máquina em função da sua autonomia estética e vital, caímos invariavelmente num paradoxo: se a máquina de Romant é extra-temporal, quem a criou não foi Romant, que continua tão palpável e tão dentro do seu corpo incómodo e real, como qualquer um de nós, que agora se agita cada vez mais furiosamente para extrair da máquina de “extrair do mundo instantes exemplares” uma vitoriosa e definitiva concepção.

terça-feira, 1 de março de 2011

Lagos e Vacas




Se há alguma coisa verdadeiramente perturbadora, essa coisa é a actualidade. E o facto (ainda mais perturbador) de não existir, por exemplo, medicação que nos afaste um pouco dessa persistente pátria espontânea que é a actualidade de tudo e de todos, e, ao mesmo tempo, a de nada e a de ninguém.
No fundo, estamos tão sentados em cima da actualidade, como o poeta do relato de Hélder está sentado em cima da Holanda. Já sem recursos suficientemente convincentes que o levasse a tomar a decisão (ainda que teórica, apropriada) de se deslocar, ele (mantendo-se em cima da Holanda) pensa na tradição. E nós pensamos na tradição, com ele. Depois ele diz para si mesmo que é “alimentado pelos séculos, [e que vive] afogado na história de outros homens”. E nós repetimo-lo, repetimo-lo incessantemente, num estado de transe, próximo da ecolalia e dos estados catatónicos mais primários, enquanto engolimos água, e nos engasgamos com pedaços das biografias alheias que vêm dar à costa dos nossos dias partilhados.
Mas há um ponto em que, definitivamente, discordamos. Esse ponto é quando o poeta, depois de dar conta da perdição da sua alma (até aqui, não há nada a objectar), se reconhece ao encontrar, perto da sua solidão, primeiro um lago, e depois vacas.
Ora, parece-me muito pouco provável que haja lagos e vacas na actualidade.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O curativo



Noto a enfermagem nova das tuas mãos
nas minhas.
Noto na voz religiosa das ligaduras
uma vocação egípcia.
Noto na noite escura da ferida
as inúmeras luas de Betadine.

Depois, podes até acariciar a seringa.
Mas, no fim, sou eu quem te inocula o tétano
do meu sorriso.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Fobias e Semântica



A lista de fobias que podemos, por exemplo, encontrar nas regiões mais sórdidas da internet ascende ao cúmulo do credível e ofende, não raras vezes, a nossa capacidade para as verbalizarmos de forma coerente e estável. Em primeiro lugar, estão os nomes, os nomes dados a cada fobia, cuja etimologia feroz vegeta na morfologia estrábica das palavras: das mais humildes, desde a Automatonofobia, que professa o medo das representações antropomórficas (bonecos, ventríloquos, figuras de cera, criaturas animadas), às mais exigentes e sonâmbulas, como a Tetrofobia, muito enganosamente o medo do número 4, ou a Triscaidecafobia, o medo do número 13. Já o medo mediático e incomum da famosa sexta-feira 13 recebe a pomposa e dupla denominação de Parascavedecatriafobia ou Frigatriscaidecafobia.
A lista é supostamente babélica ou infinita (e tendencialmente mais impenetrável quanto mais matemática e minuciosa for a sua incidência irracional), mas haveria, com certeza, nas intenções obscuras de Borges, ou mesmo de Stanislaw Lem, o projecto ignóbil e inconsequente de a levar a cabo em vida, como se se tratasse de um dicionário extremo e ofegante, ainda que a razão lhes ditasse o caminho contrário, qual fio de Ariadne, sempre pronto a sugerir as saídas emergentes e os antónimos da perdição.
Se a fobia vista ao microscópio deixa ampliar o seu campo vocabular e semântico de batalha, ao ponto de tornar a sua leitura tão estranha e heterodoxa quanto a sua etiologia desesperada, o mesmo acontecerá quando apontamos a lente do telescópio para o Espaço, onde o medo adquire os contornos subjugados do puro medo especular?
A resposta arde na frequência casta das galáxias.
A propósito do que ficou dito - e do que forçosamente acabou de ficar por dizer - há um poema de Roberto Juarroz que nos submete ao resumo, que é uma forma mais sensata de aniquilarmos distâncias, e talvez seja agora oportuno relembrá-lo em parte:

El fruto es el resumen del árbol,
el pájaro es el resumen del aire,
la sangre es el resumen del hombre,
el ser es el resumen de la nada.

(…)

La palabra es el resumen del silencio,
del silencio, que es resumen de todo.


E se houvesse um resumo para todas estas fobias, uma fobia que englobasse todas as outras, reais e imaginárias, uma fobia capaz de reinventar fobias, micro e macroscopicamente desumanas, que nome torpe lhe daríamos, como circunscreveríamos a sua ocorrência na ordem supersónica do caos?
Deixo aqui a minha sugestão:
Sjdfkjsafykawhfaleuylesfgawegfkawefaskeufgawegkfaskegfaskefaksefaksegfasekfgaels&gfaskefgaselufgseufgaseeufgaseufgase€gasefgaseufgasezfgaseukfgasekfasekfasekfasekf#sek#fgasefgasekhfgawpaweuw.eofuqwef723087r2pq3rufq2pefy2q380f!2^ç3pqyq38fq28pe4yf,weuofawfFOBIA.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os espelhos insones



Os espelhos não dormem. Não sou eu que o digo, é Augusto Monterroso, um dos principais causadores da melhor literatura guatemalteca do século XX, num texto minúsculo – como, aliás, foi quase sempre seu apanágio.
Em “El espejo que no podía dormir”, o protagonista é um espelho de mão que associa a ociosidade e o repouso, de que tem sido vítima ultimamente (!), ao mais implacável sentimento de exclusão. Esse sentimento é agravado pela forma como os outros espelhos vêem nessa debilidade um motivo perfeito para troçar da sua inquietação infantil, minutos antes de mergulharem no seu próprio abandono, já fechados na cómoda do quarto, dentro do gavetão.
O texto termina em 6 linhas, a última palavra descreve o espelho infeliz como “neurótico” e Monterroso deixa o leitor a pensar.

Ainda que o autor sublinhe que à noite todos os espelhos eram guardados no gavetão da cómoda, para aí exercerem, completamente às escuras, a sua função ignorada – reflectirem a escuridão – eu não me conformo que a consciência os deixasse padecer assim de um sono tão descansado.
Estou certo de que a memória de um espelho não é abalada com facilidade. Durante o sonho, (porque os espelhos também sonham, libertam imagens), as coisas por ele reflectidas uma vida inteira reaparecem-lhe à tona da sua superfície gelada: restos de rostos e vidas mal maquilhadas, indecorosos fragmentos da nudez humana, pequenos crimes, saliências, pontos negros, manchas de batom, salpicos de saliva e neve falsa, a compelida contemplação de um deserto num móvel velho, o percurso do bolor numa porta fechada, a fissura crónica de um tecto, um enorme pedaço de cal que ameaça cair todos os dias, precisamente às seis da tarde…