sábado, 2 de julho de 2011

Uma questão de etiqueta



As rotas da cerimónia demoram a decorar. Sinuosos trejeitos, tiques vários, a apicultura pobre da decência que espalha por todo o lado o seu fedor a urina queimada, poses impotentes e pormenores orbiculares. Era difícil manter-se em pé, quanto mais fixar a existência na fotogenia do impasse. Mas tinha de ser assim. As ordens tinham sido muito claras.
Quando Flectil, o mordomo, desapareceu por detrás daquilo que parecia ser a entrada de uma cave, uma luz muito intensa e árida incendiou o convidado. Através de um sistema de som cuidadosamente instalado na sapiência sórdida da casa, pôde escutar a voz da condessa cumprimentando-o e depois algumas breves instruções sobre como deveria dirigir-se até à sala de jantar. O caminho teria de forçosamente perscrutar o critério escrupuloso dos seus passos e estes o da cadência constante, caso contrário, um passo ou uma nota em falso e os meros 30 metros que separavam a entrada da sala de jantar decuplicar-se-iam, sem mais.
A extravagância aumenta a potência dos espelhos e fere a matemática formal. À medida que o convidado avançava pelo longo corredor que separava o ponto de partida do local onde o esperava a condessa e o acaso, a sua indispensável correcção muitas vezes escorregou no desejo de a possuir contra todas as paredes daquela casa, o seu rosto mergulhou nas piores inadequações dos sentidos, a sua firmeza triste e encenada foi punida pela inconveniência da antecipação.
Mais de 10 horas depois e a pouco menos de 7 metros da porta da sala de jantar, o convidado mostrou-se incapaz de prosseguir e perguntou se seria possível parar e masturbar-se. A voz considerou, com a desfaçatez das vozes gravadas. Depois, desatou a rir e voltou a falar das regras estritas do jogo, dos 30 metros famosos por se decuplicarem, da necrodinâmica da precisão.
O convidado achou tudo muito estranho e imediatamente a seguir resolveu correr e começou a despir-se e a correr para a porta aberta da sala.
Ao quinto segundo tropeçou numa qualquer desvantagem funcional, fez uma pirueta inútil no ar e ao pouco que pôde ver ainda não conseguiu dar palavras.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Puma Bartolomeu Júpiter



Puma Bartolomeu Júpiter acaba de receber, summa cum laude, a maior ovação da sua vida. É uma torrente eléctrica de mãos na intermitência histérica e sublime dos aplausos, uma plateia antiga que ergue do nada um exército de rostos convencidíssimos e cauterizados, entre o rigor atrófico, a inveja fúnebre e a transpiração, e, como se isso não bastasse, o estertor das palmas das mãos de quem, finalmente, compreende, sofre um verdadeiro ataque de compreensão e fornece, por isso, ao escândalo protocolar, uma dose extra de cinismo e elegante mal-estar.
A tese de Júpiter é aparentemente muito simples: Júpiter provou que o amor dissolve-se no sexo, antes mesmo de lhe tocar. Partiu primeiro e até por intermédio das analogias da ingenuidade do composto fictício de Asimov, a “thiotiomoline”, composto este que se dissolveria em água antes mesmo de lhe tocar, e transferiu as propriedades da “thiotiomoline” para o amor e as da água para o sexo.
À forçosa semelhança de Asimov, Júpiter acreditava que o amor (100% solúvel no sexo) antecipava materialmente a sua solubilidade, porque, é ele que escreve, “há no composto raro do amor um registo espacio-temporal cindido, onde o átomo de carbono cria ligações químicas apaixonadamente reactivas à estabilidade física geral”.
O mundo não teria mudado sem esta tese de Júpiter. A sua invenção foi de tal forma sobrevalorizada, o nome de Júpiter foi tão ouvido e citado, dentro e fora da academia, que tudo se tornou previamente solúvel em tudo, tudo com o seu átomo de carbono instável, tudo com a sua face dupla e miserável, tudo com a sua insurreição temporal.
“Há um momento – pensa Júpiter, esmagado pelos aplausos – há um momento em que alguma coisa me leva a descrer profundamente na espécie humana. É como que se eu não fosse inteiramente solúvel nela e nos seus e nos meus argumentos armados viesse à tona o cadáver louco da sua antecipação.”

sábado, 18 de junho de 2011

The copenhagen kiss



A noite em Copenhaga é infeliz. A língua é áspera de faisões e pesadelos e as duas luas que se vêem daqui não condizem.
Sobra razão e gente demasiadamente submersível, uma inabilidade arqueológica e sincera para sorrir. Copenhaga gravita e navega na intolerância desértica do Norte
e do seu ignóbil declínio. Copenhaga é um navio
um pouco maior do que a sua cópia
de gelo, tripulado pelos fantasmas siameses
do destino. Copenhaga é de compleição tímida,
maioritariamente pálida, indescritivelmente geométrica.
E, ao mesmo tempo,
Copenhaga acompanha bem com um bom vinho
prescindido, vulcões com a disponibilidade do Brasil
em dias de festa,
uma ou outra insubordinação de asas partidas.
Mas é só quando Copenhaga ganha a visita do teu séquito
que eu sou verdadeiramente
infeliz.

sábado, 11 de junho de 2011

Le mal du pays




Às vezes, é só a cabeça de um leopardo doente.
O rancor musical de uma cesta de fruta, à cabeceira.
Um silêncio apócrifo, puro, pouco higiénico até,
a matemática mórbida da chuva contra a inconveniência
que regressa e a saga cega de alguns insectos terrivelmente felizes
pela morte recente do teu sexo,
e do teu peito, satélite natural da armadilha,
onde a manhã apagou mal o seu cigarro desaparecido.
Depois, a calma suja e pulmonar do dia seguinte.
O teu corpo, cheio de espadas e sequelas,
atirado à baba lenta da permanência,
à luz que lhe dá de beber
e que, ao mesmo tempo, aprende lentamente a destituí-lo.
Nove exactos segundos de apneia, para no décimo apenas meio mundo emergir.
Como um país, cuja capital ficara devastada por gritos e agora renascesse
na exausta arquitectura das suas antecedências
o equívoco.

sábado, 28 de maio de 2011

O tempo do sol se pôr






Pedes-me que vá contigo ver a tarde rebentar, assistir a um espectáculo único, em estreia absoluta numa praia bem afastada da cidade e de toda a máquina de má-criação ocidental, um filme propositadamente mudo projectado em céu aberto, com uma narrativa demasiadamente linear e efeitos sonoros arcaicos, apesar de apresentar um elenco de luxo, entre estrelas prematuras e luas célebres pela sua perspicácia ornamental. Pedes: por favor, vem ver comigo a tarde rebentar, a tarde rebentar, a tarde rebentar, o teu telefone dá eco, mas o eco é só uma reflexão do som, nada mais, não tem substância, sentido, não é nenhum indício de nada, eu é que ouço tudo multiplicado, vejo tudo multiplicado, sinto tudo multiplicado, agora, com o meu telefone a arder nas mãos e os uivos transparentes do desejo que a tua voz adoça com coragem, agora que tu pedes em demasia, agora que me amarras ao valor acrescentado da tua chamada, pedaços de linhas trocadas e restos de álcool nas sílabas onde o sol demora a entrar, agora que me espancas com um convite apesar de tudo simpático, não fosse o facto de ocultar a bomba atómica debaixo de tanta metáfora desinteressada e um cheiro forte a ganância, realce e convicção.
A partir de determinada altura, já não pedes, persuades. A tua voz é uma câmara fechada, onde o eco corrige as suas perfurações com sangue e óleo de sândalo. A tua voz é perfeita, porque é performática. A tua voz elabora um pão minúsculo, altamente aliterado, que eu como, sílaba a sílaba, sem dar por nada. A a sua assimilação é imediata e rapidamente entra o sol em circulação. O pão tem a informação essencial que o teu pedido verbal transporta e explora em metáforas, com a excepção de actuar directamente sobre o meu sistema nervoso central, e suspender-me como uma droga suspende os membros e a resposta mais provável.
As reticências não duram eternamente, a tarde vai-se afundando e é preciso que eu diga qualquer coisa entretanto, mas eu continuo calado, tão calado como um afogado entrevistado em plena acção, Então? Anda lá. Passas primeiro por minha casa?, e eu, com a boca cosida, cheia de palavras derrubadas, aftas, pequenos cadáveres monumentais, eu murmurei qualquer coisa incompreensivelmente cómica, numa língua que nunca soube falar. Foi então que tu tomaste o meu grunhido como um sim (também o meu telefone dava eco, disseste, para terminar) e incluíste no silêncio final um “Até já” sonâmbulo, e foi também então que a chamada caiu desamparada e os pontos que eu tinha nos lábios desapareceram, sem mais, e o ser voltou ao seu lugar.

sábado, 21 de maio de 2011

Gritar






Às doze badaladas do mês de Agosto, em Paris, 1954, e mais precisamente num quarto de um homem que dorme, no sentido que Perec quis que um homem dormisse, no hemisfério norte do seu nada, algures no confessionário mais sólido da cidade, soa uma sirene, primeiro secreta, logo determinante. A sirene e o seu mundo estúpido, matemático e desorganizado acordam o senhor Jacques. Há, antes de mais, um alvoroço na cama, no quarto, o silêncio amarrotado de quem acabou de perder o sonho e a única tábua ou túnica de salvação.
Depois de entrar na máquina que o expulsou do sonho e o devolveu ao seu âmbito vulgar, o senhor Jacques acorda verdadeiramente, é obrigado a acordar, cresce dentro da sua idiotia de recém-acordado e sua, sua muito, como um náufrago. Os batimentos cardíacos, como pombas às cabeçadas nas estátuas das praças das cidades principais. A respiração, tecnicamente ofegante, mas sobretudo irreal, o fole de um fantasma, música rouca, olhos sem qualquer realce. Depois, a sensação do corpo mal ressuscitado. Mil vezes, a sensação do suicida falhado e a boca seca e a convicção rastejante. A sensação do irrecuperável, a arquitectura invertida do irrecuperável, e o espectáculo que a perda pode por vezes oferecer a um homem que sonhava que dormia, no sentido que Perec quis que um homem dormisse, no hemisfério norte do seu nada.
O senhor Jacques levanta-se, cede depressa ao deus da vertigem o seu medo das profundidades, serve o príncipe da diplopia geral, entrega-se ao mundo invertebrado do cansaço, do cansaço de quem acorda com a sensação do irrecuperável ao lado, na cama, teria ele mesmo ido para a cama com o cansaço, - pensa o senhor Jacques – ou aquela sensação do irrecuperável imune ao mundo invertebrado do cansaço, que ao som de uma sirene acordou um homem que sonhava que dormia, no sentido que Perec quis que um homem dormisse, no hemisfério norte do seu nada, seria mesmo real?
No deserto das respostas, os segundos passam, como séculos vindouros que chegassem ao presente envenenados. O que resta do sonho, ainda se arrasta com ele como um caimão.

Vemos agora o senhor Jacques a dirigir-se à cozinha, coberto de baba, teorias e cabelos ocasionais, teias de aranha e discordância acrobática e sentimental, disparate remotamente controlado e carência de sol na constatação, vemos o senhor Jacques a acender a luz, a agarrar num copo com aparente leveza, mas que um olhar mais atento descobriria nas terminações nervosas do vidro formas microscópicas de ambição variável, vemos o senhor Jacques a lançar o olhar para a lua que brilha enorme como um alarme, vemos o senhor Jacques despir a parte de baixo das calças do pijama, libertar a única parte que negoceia única e temporariamente com o seu último país em paz, vemos - nunca ouvimos - o senhor Jacques gritar pelo teu nome, gritar muito pelo teu nome, gritar.

sábado, 14 de maio de 2011

O instinto



O instinto tem parte da face desfeita e a boca interditada pela república irreversível da deformação. Por isso, o instinto precisa do suplemento do outro e que o outro lhe devolva a face intacta do seu lugar. O amor, narrado a partir da invenção do outro e dos seus/próprios reflexos consagrados, é apenas uma cãibra do instinto, o tempo de o instinto ir à casa de banho urinar, por vezes com a máscara prolongada de uma erecção acidental.