quarta-feira, 16 de junho de 2010

História de uma maçã (pecado hipertextual)




Pude afinal na prudência ter adoecido.
Ou seria só o sono a cicatrizar mal?
A febre felizmente era apenas uma alegoria
cínica, um gato com alergia à vida,
um pássaro sem um plano preciso
onde pousar as suas perigosas alíneas
intemporais,
calor e humidade a dançarem bêbados
na prostração.

Já na Aldeia, consegui que me acreditassem
de um planeta seguinte e perguntei por ti
e pela parte inoxidável da maçã.
Muitos homens tinham morrido
pressionados pelas circunstâncias.
É sempre assim, quando uma mulher infecta
a sua graça nas páginas da pulsão.
As crianças brincavam nas sucatas
com carcaças, e as vidas sintéticas
eram os seus brinquedos mais iluminados.

Entretanto, a tua ausência
feita espada na boca
dos maridos minguantes
foi apanhada numa rede
de tráfico de expectativas
desiguais.

Mais homens morreram.
Mais homens morreram.
Até que a população masculina
se extinguiu.

Tive sorte, não só porque pertencia
a um planeta seguinte e distante
mas porque a necessidade
de uma minoria essencial
ainda recruta fantasmas
para integrar a sua equipa
de ficções extraviadas.

Ainda assim, fui discriminado
por não gostar de maçã
e objectar outras serpentes
pedantes da aculturação.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Perigos da representação




Não foste tu
nem a vida
mas Stanislavski
quem me ensinou
a chorar.

E talvez por eu ser alérgico
a ti e à vida
as lágrimas apareçam agora
disfarçadas
de corrimento ocular

e um cheiro intenso
a sobreexposição
corporal
a película queimada

nada mais.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Heart Failure




O coração seduz porque apresenta ambiguidades
insuspeitadas aos críticos da arte cardíaca.
Já os engenheiros e os economistas teimam em contrariar esta tese
porque acreditam que o coração não faz mais do que a sua obrigação.
O psiquiatra vê no coração um monte de músculos à mercê
de um vermelho tóxico e propagandístico (não inocente).
O homem do talho, contudo, progride na fantasia
e vende corações de animais comestíveis e, como numa aula de anatomia,
coloca-os na montra do talho com o preço e o desapreço por cima deles.
Finalmente, o arranca-corações arranca corações. E é tudo.

No entanto, é do coração que o poeta fala
o seu domingo sangrento.
E domingo sangrento é um programa de rádio
que o poeta concebe no ventrículo esquerdo
porque tem mais acústica e ritmo
para contrariar o resto da programação.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Gestos a evitar



Recupero da febre das princesas de mármore.
Vou tornar-me num homem necessariamente melhor
mas sem flores para dar.
A partir de agora, levarei apenas o meu corpo frágil
ao baile
e ao teu pescoço as minhas mãos
desiguais.
Viajarei sozinho para as ruínas de amanhã
capital do novo âmago.
Levarei a minha face à face da estrada
estupefacta, e serei eu próprio quem irá escrever
a notícia dos meus passos directos ao acidente
e ao oriente da idade, e de tudo o mais
que nos embaraça
de rugas e teatros exaustos
entre tantos gestos a evitar.

domingo, 6 de junho de 2010

Elogio da imperfeição




A maior avenida não é a da liberdade.
Há lugares que só na proibição se acendem.
Por exemplo: uma mulher quis ser uma sereia
célebre e ofereceu metade do seu corpo
à ictiologia e à natação.
Mandou vir a mudança radical pela internet.
Como se esquecera de especificar o animal
marinho, trouxeram-lhe um fato de cefalópode
sem possibilidade de troca ou reembolso
de esperanças.
No entanto, a mulher que queria ser uma sereia
célebre não desesperou. Vestiu o fato
e comprou um microfone para cada tentáculo
e foi para a avenida da liberdade cantar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A lenda do homem-algo





Parte de mim está vestida a rigor para o diálogo
e leva rosas na lapela e supernovas no epitélio
lingual e chocolates na mansidão para a sua amada.
A outra parte recebe estes presentes todos
ao pormenor no conforto de sua casa.
Depois escreve uma carta que a primeira parte
não pode nem ousa decifrar.
A primeira parte de mim parte-se em bocados e chora,
e o choro mancha-lhe a elegância, murcha-lhe as rosas,
apaga-lhe as supernovas e desmancha os chocolates.
Uma vez nua e consternada, a minha primeira parte
resolve mais uma vez contra-atacar
e usar a sua nudez e a sua consternação
a favor do bem comum e da lógica indivisa das galáxias
mas a minha outra parte e o seu universo continuam
em contracção e eu, aproveitando o intervalo
e o debate aceso entre o governo e a oposição,
tomo o partido do que está a mais
e um comprimido da classe dos inevitáveis
e vou-me deitar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Still Life




Há um momento em que, de facto, se faz justiça.
Quando o silêncio demove as coisas do seu suporte terrestre.
E as coisas continuam pousadas no peso de serem assim,
tanto quanto o destino,
deixando contudo à sua volta uma mancha de hipocrisia
(ainda não há fraldas para a incontinência das coisas
que sabem que voam, mas fingem o repouso
a preços baixíssimos.)