terça-feira, 18 de maio de 2010

Música para cépticos (um caso de negligência médica)







O médico tinha acabado de desistir
de mim.
Ouvi o rufar de um tambor próximo
da expectativa mais negra.
O sexo exausto de um saxofone
na periferia da vida
anunciando
do alto das suas últimas notas terrestres
o nível de saturação da vertigem.
E o público, finalmente,
a aplaudir.

A sua sombra era uma poça de suor,
o suor da sua desistência traduzida
em transpiração, memórias vagas
de um quarto em Antuérpia
agora compelido num estranho número de sapateado
de dedos inquietos
sobre a pele proibida
da escrivaninha.

O médico pousava o estetoscópio
como um domador de serpentes
pousa a flauta na melodia
e dizia qualquer coisa incompreensível
enquanto atirava a espátula ao lixo e o olhar à parede
que se perdia nas sombras soerguidas
da descrição do problema
e o verbo que viria a seguir
começava já a brincar
numa cama de sangue
ao início da sua boca
como uma espécie de alegoria
com baixo índice de glicose
na certeza.

Amar começa por uma ligeira inflamação
nos bons princípios
- disse ele -
e depois essa música que me fala,
essa música é pertinente,
infectou, fez-se ver,
arrastou literalmente o senhor Humberto
para uma patologia amoral que o corpo nega
numa escola de desejo e espelhismos.

O senhor está a amar, senhor Humberto,
- continuou o médico, deixando um pouco a sua desistência
de lado, tentando convencer-me de que a música
que eu ouvia era apenas uma consequência deserta
própria dos seres com uma forte susceptibilidade
à voz amada, morta e constituinte,
e às suas inúmeras plateias de sentido
nem sempre do agrado de um Orfeu
com pouco jeito e paciência para descer
às profundezas do objecto.

Amar não tem cura, senhor Humberto,
mas também não mata ninguém.
Pode ter uma vida quase normal.
Faça longos passeios e divirta-se.
Evite apenas a profilaxia.

E mandou-me sair.

Mas eu não estava a brincar.
Nem a amar verdadeiramente
a vida.
E no dia seguinte,
enquanto o médico lia a notícia
do meu falecimento
passaram helicópteros do exército
cisnes da polícia lírica
e sinestesias com pedaços de metáfora
entre os dentes
doentes civilizacionais
com falsos apaixonados pela trela

e a tarde rebentou e a noite eclodiu
e o silêncio voltou a dar o exemplo
numa cidade onde ninguém existia
na acústica do outro
a não ser como ruído
ou revés.

4 comentários:

  1. bravo!
    :)

    O que dizer quando roubas as palavras todas? Talvez aquelas que te faltam roubar...

    Abraço.

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  2. (Ando aqui às voltas para dizer que gostei imenso, mas tudo o que me ocorre me parece banal.)

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  3. uma maneira "diferente" de escrever poesia, mas que revela um talento nato.

    gostei!

    beij

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