terça-feira, 6 de julho de 2010

Estátuas de calor




O calor cala a cena habitual,
inunda de nudez e estátuas
as nossas novas instalações.
Despromove o equilíbrio do corpo.
Instaura uma regra movida a indisciplina,
uma vida de estilo barroco minimal.
Enquanto a ideia da água
veste o vestido de noite
donde sobressaem as suas próteses
insolúveis na sedução.

Cada um com o seu infinito pessoal e muita pele ambígua
atravessa o calor.
Há um anjo na personalidade utópica da ventoinha.
As horas engordam. Algumas mais exageradas,
chegam mesmo a morrer, sem darmos por isso.
Os animais não dormem: derramam
lentamente o seu instinto
amador.

As faces abandonam o seu âmbito
mais ou menos prestável
e pedem pão extemporâneo
às portas das grandes desfigurações.

Eu escrevo numa banheira contígua
histórias de hipertermia maligna
provocada apenas por amor.

domingo, 4 de julho de 2010

Dia mundial da possessão




Passei a maior parte da tarde
aos comandos da minha nova nave natal
quase sem combustível, o corpo faz promessas
e manobras arriscadas
começa o reino dos tristes agitados
na península pobre dos esgares
a tradição anedótica da tua face
na tua face postergada
face à possessão.
Começa também todo um período inesquecível
de zimbórios e derrames
e a noite toda orienta a tese histérica
e ocidental de que a vida só existe
do pescoço para baixo, nada mais,
mas o dom de falar várias línguas refutadas
prova-nos o contrário
e faz a face mais falsa falar.
É precisamente do pescoço para cima
que as imagens evocam mais a sua irresolução
os sete círculos do inferno elevados ao quadrado
e um grito nasce sempre de olhos bem fechados
como na matemática a raiz quadrada de dois
é um número irracional
e nessa mesma redução ao absurdo
o meu habitáculo contrai-se
por isso visto o meu melhor fato
para a desintegração
e também por isso não ignoro
as praias da inércia
as máscaras do realce
e a massa atómica relativa
do cansaço, que virá, juro que virá,
assim como os privilégios de quem morre
na república microscópica do engano

por engano
e arte de bem enganar.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Uma casa para a apostasia




Não tenho uma só casa para a apostasia.
O meu afastamento não permite limites
perfeitos
nem pegadas que indiquem qualquer acontecimento
impreterível
e, no entanto, eu já passei por ali,
já fiz com que o espaço se dilatasse para que eu pudesse
passar por ali
com o meu tempo excessivo e retraído
mas nem uma morada ficou para contar,
nem uma pensão, nem um mote de hotel de estrada ou de esquina
nem a derme crucial de um banco de jardim
todo voltado para a descrição ofegante da paisagem.

Nem a morte me deixou lá dormir
quando soube da forma como eu
desacreditava

e como era necrodinâmica
a minha vida.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Despedida no deserto




Não é tanto a tua carta fisionómica que me pede
que a assevere com a chancela do meu mal.
A minha melancolia está antes no deserto,
sexualmente envolvida com tuas premonições
mais singulares.
Querias tanto ir ao deserto que a vida abreviou
num deserto. E a imensidão deu provas
de uma ingenuidade sem par,
enquanto tomávamos altas resoluções,
e queimávamos a retina
e já nada nos retinha em nós mesmos
excepto a falta de ar
e de paz
e de depois.

Por outro lado, o pôr-do-sol no deserto
protege-nos dos lugares onde cresce
a iniciativa.
A falta dela absorve as infelizes frequências do fim.
À falta dela despedimo-nos.

E o fim é uma fonte
a esgotar-se lentamente
nas agências leprosas do tempo.
Porque o feto pusilânime, a cria lenta, continua a morrer
porque a profissão do que perdemos é ser persistente
continuamos a perder.
Porque ainda se pode fumar na sala de espera
do inferno.
E consultar a biblioteca
e cuspir para o chão
das despedidas.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O beijo e o pormenor





Beijo-te:
regressa a paralisia do sono
uma ave sem asas ao apelo
e ao agravo
e as grandes questões
fazem agora parte de uma dieta
rica em represálias
e pormenores.

E a propósito de um quarto fechado
numa determinada técnica,
numa indeterminada Era,
as pessoas praticam a apneia
da razão ao pormenor.

A asfixia é uma máscara generosa
de rescisões.

Entretanto, corre uma brisa
torcionária ao nosso redor,
um circo ambulante inflama a povoação
mais próxima dos ângulos caídos
em desuso pelo latim das línguas refractárias
as bocas abrem-se mais e melhor
pelo caminho, perdem-se alguns pormenores
não obstante uma febre aftosa de pássaros
uma primavera que procede de Hitchcock,
e as ruas desertas, de certo modo um silêncio
supersónico que as coloca nos escaparates
da hora inferior.

E provavelmente o melhor champanhe
vigilante do mundo
as luas doutoradas em Saturno
e as estrelas andrajosas da circunstância.

Não há luzes mais ingratas
nas imediações
do céu da boca.
Na louca distensão da caverna, os prisioneiros
vêem pornografia barata
e ouvem coitos de fadas ao deitar
e recebem as penúltimas
instruções.

E a noite toda é uma fábrica extravagante de coser
diálogos às repúblicas dos rostos sucessórios do amor.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Negócios Extáticos



Enquanto Santa Teresa transverbera
qualquer coisa
para o jantar
eu elucido as febres das desconhecidas
que passam cegas,
e em bicos dos pés,
pelas cataratas do amor.

Somos uma empresa fiável.
Ela é a minha sócia protectora.
E eu sou ágil nas disciplinas que exigem
menos atenção e mais contracções.

Especializei-me em mamíferos revolucionários
coisas sem explicação nem retorno
deusas, dessas que infectam facilmente
nas teorias do álcool e do furor

que apagam os dedos nas chagas
deslumbrantes do percalço

que fazem os olhos mudar de horizonte
e o horizonte mudar de cor.

Nisto, a febre baixa.
As desconhecidas
revelam o corpo acidentado
de sirocos.
E no entanto,
a fome não cicatrizou.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Life pretending death




Quando o mote é o amor finjo-me de morto
e mudo de conversa, de Veneza e de canal
e de hábitos nocturnos e tristes
e quando não posso fingir-me de morto
uso uma técnica em tudo parecida à vida
que um beijo plagia
na sua perfeição sufocante.

Pratico um certo tipo obscuro de sedação
procuro que a minha escola hipnagógica
aflija a tua pele de instantes
irreversíveis.
Por exemplo:
interessa-se sobretudo que o meu nível de consciência
se entregue a uma diminuição radical de luz e periferias,
mas que nunca perca de vista
o assalto que é preciso fazer sempre
que o outro morre também
quando o mote é o amor
e as práticas obscuras de ambos
acusam uma intimidade rasgada
precisamente no mesmo vínculo
perdido.